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Estado cego e surdo aos clamores dos oprimidos

Frei Gilvander

Uma parábola do Evangelho de Lucas narra: “Havia em uma cidade um juiz que não temia a Deus e não tinha consideração para com os homens (os empobrecidos). Nessa mesma cidade, existia uma viúva que vinha a ele, dizendo: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário!’” Pergunta o evangelho: “Deus não faria justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite?” (Lc 18,2-3.7). Essa parábola está acontecendo também agora no Brasil, especificamente em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde 1.900 famílias (cerca de 10 mil pessoas) das Ocupações Camilo Torres, Dandara, Irmã Dorothy, Zilah Sposito-Helena Greco e Eliana Silva clamam por direitos humanos a partir do direito a moradia digna. Mas o Estado tem se mostrado cego e surdo aos clamores dos oprimidos que legitimamente lutam para se libertar da cruz do aluguel e da humilhação que é sobreviver de favor. Nos últimos meses desse ano são dezenas de liminares de reintegração emanadas pelo Judiciário mineiro. Só na Vara Agrária de Minas Gerais, em cinco dias, aproximadamente 15 liminares foram expedidas para despejar ocupações rurais.

As 350 famílias da Ocupação Eliana Silva, após serem despejadas, de forma injusta e truculenta pelo prefeito de Belo Horizonte, sr. Márcio Lacerda, pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e o governador Antonio Anastasia (com caveirão e mais de 400 policiais), sacudiram a poeira e deram a volta por cima. Durante vários dias, pouco a pouco, ocuparam outro terreno abandonado distante 1 km da área despejada. Desta vez, um empresário, com residência em São Paulo, conquistou outra liminar de reintegração de posse. A juíza da 33ª Vara Cível autorizou o uso de força policial e, sem exigir do empresário ou do poder público nenhuma alternativa digna para as famílias, ordenou ao oficial de (In)justiça que tivesse cuidado ao “retirar” as crianças e os idosos. Será que ali existem coisas e não pessoas? Isso é autoritarismo disfarçado de altruísmo. É como o conto da barata: morde e depois assopra. Será que não passou da hora de os juízos, ao invés de mandar retirar, mandar assentar em lugar digno de ser humano morar, com todos os componentes necessários para garantir a dignidade da pessoa humana?

Em uma Audiência Pública na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALEMG), a Defensoria Pública do Estado de Minas e um representante da Comissão dos Direitos Humanos da OAB/MG demonstraram que o empresário não comprovou ter a posse do terreno, e que todos os terrenos onde estão as Ocupações Camilo Torres, Irmã Dorothy e a Nova Ocupação Eliana Silva, e vários outros terrenos abandonados da região, áreas contíguas, tratam-se de terras que tinham por vocação original a construção de fábricas e indústrias a fim de cumprirem a função social econômica da cidade.

Todavia, desde as décadas de 80 e 90 do século XX, estas terras foram paulatinamente repassadas do poder público para o particular, e nunca foi construído nada em cima delas. Nos terrenos onde se planejou(?) criar o Distrito Industrial do Vale do Jatobá, de fato, há 20 anos, vem acontecendo grilagem de terra e especulação imobiliária. Em 1992, a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (CODEMIG) – empresa pública de capital misto – repassou para empresas vários terrenos, alegando que seria para a criação do Distrito Industrial do Vale do Jatobá, em Belo Horizonte. Por preço irrisório e sem licitação, as vendas foram feitas, mas com cláusula contratual que exigia a construção de empreendimento industrial para gerar emprego na região dentro de um ou dois anos. Passaram-se 20 anos e nenhuma empresa construiu nada nos terrenos. As várias empresas que compraram da CODEMIG especularam e depois venderam para outras empresas que, após acumularem lucro, venderam para outras empresas que, após especular mais, venderam para outras empresas, que deixaram os imóveis em situação de completo abandono. Por lá especularam, inclusive, o Banco Rural e o Bradesco.

Enquanto isso, o déficit habitacional em Belo Horizonte está acima de 150 mil moradias. Só no primeiro dia de cadastramento para o Programa Minha Casa Minha Vida, há 3 anos atrás, 198 mil famílias se inscreveram. O prefeito Márcio Lacerda não fez nenhuma casa pelo Programa Minha Casa Minha Vida para famílias de zero a três salários mínimos. Pior: inventou o Programa Minha Pedra Minha Vida, pois, com dinheiro público e usando o suor – força de trabalho – dos pobres, mandou colocar pedras pontiagudas de concreto debaixo de viadutos da capital mineira para impedir que os mais de dois mil irmãos/ãs nossos/as que sobrevivem nas ruas de Belo Horizonte durmam debaixo dos viadutos.

Eis uma amostra da especulação que vem ocorrendo nesses terrenos. Segundo o professor Dr. Fábio Alves, histórico defensor dos direitos humanos dos pobres: “O imóvel objeto da contenda judicial que envolve a Ocupação-comunidade Irmã Dorothy pertencia ao Estado de Minas Gerais, através da Companhia de Distritos Industriais, atual CODEMIG. Em dezembro de 2001, a CDI-MG – Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais – celebrou contrato com a empresa PARR Participações Ltda., com sede em São João Nepomuceno, pelo qual o imóvel constituído pelo lote 26 do quarteirão 155 do Bairro Jatobá, Distrito Industrial, seria transferido para referida empresa, sob a condição de, no prazo de 20 meses, ser realizado no local um empreendimento industrial, gerando empregos na região. Exatos cinco meses após a celebração do referido contrato, a empresa PARR Participações Ltda, contando com a anuência da CDI-MG, transfere o imóvel para o Banco Rural S/A, como doação em pagamento. Da CDI (atual CODEMIG), a dita empresa adquiriu o imóvel pelo valor de R$ 121.000,00 e o repassou para o Banco Rural, cinco meses depois, por R$ 600.000,00. Mais do que 500% acima do valor pelo qual o Estado, por meio da CDI, repassou o imóvel ao particular. O encargo da implantação de um empreendimento industrial na área, outrora pública, foi remetido ao esquecimento. Assim, matreira e astutamente, um bem público é transferido para o particular, sem que a sua destinação seja alcançada. Transcorridos os vinte meses estabelecidos na cláusula, nada foi feito no local, e os anos se passaram desde então sem que fosse dada nenhuma destinação ao imóvel. Seis anos depois, sem que o encargo tenha sido cumprido, a mencionada CODEMIG, sucessora da CDI, permaneceu inerte. Nada fez para reverter ao patrimônio público o imóvel em questão. Pois bem, embora assentado em explícita ilegalidade, o Banco Rural S/A celebra, em 2007, Contrato Particular de Compra e Venda com a empresa Tramm Locação de Equipamentos Ltda. e outras pessoas físicas pelo valor de R$ 180.000,00. Três anos se passaram sem que sequer a Escritura de Compra e Venda tivesse sido providenciada. O imóvel, por mais de dez anos, restou em completo abandono. O local servia unicamente para bota-fora de resíduos sólidos. Fica o registro no fato de o Banco Rural ter recebido o imóvel pelo valor de 600 mil reais e o ter prometido em venda por apenas 180 mil reais. Em fevereiro de 2010, a empresa Tramm e outras pessoas físicas, sem que proprietários fossem do imóvel, celebram Contrato de Promessa de Compra e Venda com a Asacopr Empreendimentos e Participações S/A, pelo valor de R$ 580.000,00. Também esta nova empresa sequer pôs uma estaca no local. O terreno continua, em parte sendo depósito de entulhos. Em outra parte, passou a abrigar famílias que ali foram se instalando como extensão da comunidade Camilo Torres. Dessa extensão da comunidade surgiu a Comunidade Irmã Dorothy. A Asacopr Empreendimentos e Participações S/A ingressou, junto ao município de Belo Horizonte, com pedido de aprovação de projeto habitacional a ser financiado pela Caixa Econômica Federal. Há de se sublinhar que a região em que se encontra o imóvel é destinada a indústria e não a residência, conforme Plano Diretor do Município de Belo Horizonte”.

Outro empresário também requereu reintegração de posse, alegando que a Nova Ocupação Eliana Silva ocupou parte dos 15.800 metros quadrados que ele diz ter comprado da CODEMIG, mas a CODEMIG move ação judicial contra ele visando retomar o terreno porque ele não construiu nenhum empreendimento industrial no local.

O Ministério Público e a Defensoria Pública de Minas ajuizaram três Ações Civis Públicas questionando essas transferências de imóveis pela CODEMIG, mas o Judiciário mineiro ignora essas irregularidades e continua determinando o desalojamento das famílias que vivem nesses terrenos. O governador de Minas pode e deve declarar a nulidade desses contratos. Não precisa esperar a morosidade cúmplice da (In)Justiça. Só haverá paz com justiça social quando todos os terrenos do que seria (?) o Distrito Industrial do Vale do Jatobá forem destinados para um grande programa habitacional que vise a atender famílias com renda de zero a três salários mínimos. Por isso luta o MLB , a Nova Ocupação Eliana Silva, Camilo Torres e Irmã Dorothy, e muitos militantes.

Em Audiência Pública realizada na ALEMG para apurar essas irregularidades, exigimos a criação de uma CPI para apurar as ações do Estado e de empresas que especulam com terras públicas onde seria (?) o Distrito Industrial do Vale do Jatobá, em Belo Horizonte. Também de acordo com o princípio da autotutela dos atos administrativos, o Estado de Minas Gerais, tendo conhecimento do fato, já deveria ter anulado os atos eivados de vícios e que representam danos ao patrimônio público. Os bens públicos devem ser usados para o bem estar das pessoas. A dignidade da pessoa humana não é um dos fundamentos do Estado? (Art. 1º da CF/88). Diante das câmeras da TV Assembleia, mães, com suas crianças no colo, alertaram com palavras de fogo: “Vejam aqui: minhas filhas são de carne de osso. A Nova Ocupação Eliana Silva e o MLB são a nossa causa agora. Lá em poucos dias já construímos a creche de alvenaria. Assim, posso ir trabalhar em paz, pois sei que minhas crianças estão sendo bem cuidadas na creche. Naquele terreno abandonado construiremos nossas casas. De lá só saímos no saco preto”. “Minha filhinha, agarrada em mim, diante do paredão da tropa de choque me perguntou assustada: ‘mãe, pra que tanta polícia? Tem bandido aqui no nosso meio?’ Tive que responder para minha filha: ‘eles estão achando que nós somos bandidos.’ Minha filha me deu um beijo e me disse: “mamãe, a senhora não é bandida. A senhora é trabalhadora. A senhora cuida de nós”.

Felizes os que ouvem os clamores dos oprimidos e se tornam próximos de quem clama por Justiça! Aí de quem é vassalo de um Estado cego e surdo aos gritos de mães que, por amor aos seus filhos, lutam por um elementar direito: o de morar com dignidade. Em tempo: Por que a Imprensa não trata da questão abordada acima? “É a censura”, me dizem muitos.

Eis, abaixo, links de sete vídeos que corroboram o analisado e denunciado acima. Os vídeos estão também em www.gilvander.org.br (Galeria de vídeos).

1) Audiência da Ocupação Eliana Silva na ALEMG: Arquiteto desmascara Márcio Lacerda. 07/09/2012

2) Rede de apoio à Ocupação Eliana Silva: Wiliam, das Brigadas, e Bizoca, do IHG. 07/09/2012

3) Fila do Povo da Ocupação Eliana Silva, na ALEMG: Mães e Crianças clamam por moradia. 06/09/2012

4) Dr. Elcio Pacheco- Comissão de Direitos Humanos/OAB/MG- defende Ocupação Eliana Silva.

5) Defensoria Pública de MG defende Ocupação Eliana Silva na ALEMG: Ilegalidades. 06/09/2012

6) Audiência na ALEMG sobre Ocupação Eliana Silva – vídeo 2: despejo? Leo do MLB. 06/09/2012

7) Ocupação Eliana Silva em Audiência Pública: Leonardo e MLB denunciam injustiças. 05/09/2012

 

Gilvander Luís Moreira é frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br www.gilvander.org.br  www.twitter.com/gilvanderluis – facebook: gilvander.moreira

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DEVOÇÃO.

Com o uso de depoimentos de historiadores, pesquisadores, autoridades do candomblé, freis e devotos do catolicismo, o filme tem como propósito mostrar aspectos que contribuam para o debate polêmico sobre o sincretismo das religiões existentes no Brasil, que se evidencia, sobretudo, após a chegada dos escravos negros vindos da África.

De acordo com a história, os africanos eram obrigados a seguir os ensinamentos da Igreja Católica logo que desembarcassem em terras brasileiras, mesmo que pertencessem a outras tribos ou culturas. Desse modo, eles se viam forçosamente divididos entre duas religiões –situação que permitiu o surgimento de uma analogia entre santo Antônio (o mais popular do catolicismo) e Ogum (importante orixá africano) e colocou em questão a legitimidade de se cultuar os orixás como se fossem santos católicos.

Opiniões de devotos do candomblé e do catolicismo são exibidas junto a imagens feitas em terreiros e durante a celebração de missas para enfatizar a fé existente em cada uma das crenças, independentemente de suas diferenças ou similaridades.

O documentário, que não contém narração do autor, foi filmado entre abril e junho de 2007 no Rio de Janeiro (RJ). Em 85 minutos, muito mais do que rever mitos e colocar lado a lado as peculiaridades de cada uma das crenças, o filme deixa claro a singularidade da cultura brasileira.

Direção: Sérgio Sanz. Duração: 85 minutos Classificação etária: livre.

Fonte:http://raizafricana.wordpress.com/2009/08/30/trailer-do-documentario-devocao/

BOA SESSÃO:

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Gustavo Gutiérrez, o pai da teologia da libertação

Certamente todos nós já ouvimos alguma vez falar em Gustavo Gutierrez. Seu nome está ligado à Teologia da Libertação, nascida na América Latina, e que alimentou e continua alimentando a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, pelo Brasil, pela América Latina e pelo mundo afora.

Leia a entrevista com Gutiérrez, publicada há poucos dias, pelo Instituto Humanitas Unisinos.

Gustavo Gutiérrez, o pai da teologia da libertação

Ele é um dos teólogos mais importantes do século XX. O dominicano peruano explica por que consagrou sua vida ao reencontro de Deus e dos pobres.

A reportagem é de Martine De Sauto, publicada no jornal La Croix, 24-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele avançou um pouco cansado, apoiou na mesa a sua bengala preta que ele nunca abandona, e se sentou. De passagem por Paris, por ocasião do 50º aniversário do Comitê Episcopal França-América Latina (Cefal), Gustavo Gutiérrez, considerado o “pai” da teologia da libertação, já se encontrou com missionários, estudantes e professores do Institut Catholique de Paris, responsáveis pelo Secours Catholique, parceiro do CCFD [Comitê Católico contra a Fome e pelo Desenvolvimento].

Na manhã do dia 24, na sala da casa provincial dos sulpicianos onde ele se hospedava, ele evocou de novo aquela teologia que marcou profundamente a Igreja latino-americana. Falar de si mesmo não é um de seus hábitos. Mas, nessa manhã em que a primavera [europeia] clareava as velhas paredes da sala, esse pequeno homem, simples, amável, aceitava fazer o relato da sua vida. O encontro durou quase três horas. Também poderia ter continuado. Gustavo Gutiérrez não estava mais cansado.

Ele nasceu em Lima, no Peru. Com apenas 12, por causa de uma osteomielite, ficou preso à cama durante vários anos. “Não havia antibióticos. Eu era aluno dos Irmãos Maristas. Tive que abandonar a escola”. Estudava em casa, jogava xadrez, lia. “Meu pai era um grande leitor”, lembra. “Seguramente, ele me influenciou. Dele também herdei o senso de humor, que ele sempre mostrava, apesar das nossas dificuldades”.

Aos 15 anos, descobriu Pascal, que o marcou permanentemente. E, pouco tempo depois, a História de Cristo, de Giovanni Papini, que o tocou profundamente. Interessou-se também por filosofia e psicologia através dos escritos de Karl Jaspers e de Honorio Delgado. O desejo de se tornar padre, que ele tivera no início da doença, o deixara. No entanto, entrou aos 14 anos na Ordem Terceira Franciscana. “A pobreza já estava presente na minha vida de filho de família modesta, marginalizado pela doença, e nas minhas escolhas”, observa.

Aos 18 anos, pôde finalmente ir para a universidade estudar medicina (com o desejo de se tornar psiquiatra) e filosofia. “Membro do movimento universitário católico, eu participava ativamente da vida política da universidade”, lembra. “Foi então que ouvi na minha vida perguntas que questionavam a minha fé. Aos 24 anos, eu escolhi me tornar padre. O bispo de Lima, considerando-me muito velho para o seminário, me mandou para a Europa”.

Em Leuven, aprendeu francês, escreveu uma tese sobre Como Freud chegou à noção de conflito psíquico. Depois, se transferiu para Lyon para estudar teologia. “Era um período difícil na Igreja francesa, mas muito rico”, diz, “que me permitiu encontrar Albert Gelin (cujos trabalhos sobre os ‘Pobres de Javé’ orientaram as minhas pesquisas), Gustave Martelet e dominicanos (como Marie-Dominique Chenu, Christian Duquoc… e também aqueles da minha geração, como Claude Geffré). Muitos anos depois, quando eu tomaria a decisão de entrar na Ordem dos Pregadores, um dos meus amigos de então, padre Edward Schillebeeckx, dominicano flamengo, me escreveria uma carta que começava assim: ‘Finalmente!'”.

Viver em solidariedade com os pobres

Enquanto isso, ordenado sacerdote, Gustavo Gutiérrez voltou ao Peru. Nomeado a uma paróquia do bairro pobre de Rimac, em Lima, e capelão dos movimentos cristãos, ele se dedicou ao seu trabalho pastoral, dando aulas também na universidade católica. Mas já havia um problema que o atormentava: como dizer ao pobre que Deus o ama?

Em maio de 1967, dois anos depois do Concílio, do qual participou, ele abordará essa questão diante dos estudantes da Universidade de Montreal, distinguindo pela primeira vez três dimensões da pobreza. A pobreza real de todos os dias: “Ela não é uma fatalidade”, explica, “mas sim uma injustiça”. A pobreza espiritual: “Sinônimo de infância espiritual, consiste em colocar a própria vida nas mãos de Deus”. A pobreza como compromisso: “Ela leva a viver em solidariedade com os pobres, a lutar com eles contra a pobreza, a anunciar o Evangelho a partir deles”.

Para explicar a ideia, ele se concede um pouco mais de tempo, atento a não pular alguma etapa. “No ano seguinte, eu ainda tinha que dar uma conferência em Chimbote, no Peru. Haviam-me pedido para falar sobre a teologia do desenvolvimento. Expliquei que uma teologia da libertação era mais apropriada”. Essa linguagem teológica, que leva em consideração o sofrimento dos pobres, inspiraria os bispos reunidos em Medellín (Colômbia) para a segunda Conferência do Episcopado Latino-americano (Celam)

Nasce a teologia da libertação

Em maio de 1969, Gustavo Gutiérrez foi para o Brasil, que vivia então as horas mais escuras da ditadura militar. Ali encontrou estudantes, militantes da Ação Católica, padres cujo testemunho enriqueceriam a sua reflexão que desembocou na sua obra fundamental: Teologia da Libertação. “Antes do Concílio”, especifica, “João XXIII havia anunciado: a Igreja é e quer ser a Igreja de todos, e particularmente a Igreja dos pobres”. Os padres conciliares, preocupados com o problema da abertura ao mundo moderno, esqueceram-no um pouco. Na América Latina, essa intuição foi retomada. Os pobres começavam a se fazer sentir. “Muitos de nós víamos neles um sinal dos tempos que era preciso perscrutar, como pede a constituição Gaudium et Spes. Por causa da minha idade, da minha presença no Concílio e em Medellín, eu é que fiz um trabalho de teólogo. Mas poderia ter sido outro”.

A libertação da qual Gustavo Gutiérrez fala não é um programa político. Ela se situa em três níveis que se cruzam. O nível econômico: é preciso combater as causas das situações injustas. O nível do ser humano: não basta mudar as estruturas, é preciso mudar o ser humano. O nível mais profundo, teologal: é preciso se libertar do pecado, que é a recusa de amar a Deus e ao próximo.

Quanto à teologia, ela é o meio para fazem com que o compromisso com os pobres seja uma tarefa evangélica de libertação, uma resposta aos desafios que a pobreza coloca diante da linguagem sobre Deus. Essa teologia se revela contagiosa. Nos Estados Unidos, na minoria negra, na África, na Ásia, teologias desses “terceiros mundos” se despertam, impulsionadas por um novo fôlego.

Uma vida pelos pobres

Mas essa teologia também se choca com oposições. As mais violentas vêm dos poderes econômicos, políticos e militares da América Latina, assim como nos EUA. Mas também vêm de católicos que a acusam de fazer referência, ao analisar certos aspectos da pobreza, à teoria da dependência, que usava noções provenientes da análise marxistas.

Na conferência do Celam em Puebla (1979), que confirma a visão de Medellín e fala da “opção preferencial pelos pobres”, manifestam-se resistências também dentro da Igreja latino-americana. “Medellín”, reconhece Gustavo Gutiérrez, “foi uma voz muito profética que provocou compromisso e resistências. Mas quando uma Igreja é capaz de ter entre os seus membros pessoas que dão a sua vida pelos pobres, como Dom Oscar Romero e muitos outros, há algo de importante que acontece nessa Igreja”.

A teologia da libertação também sofreria por causa das posições do Vaticano. Em 1984, ela foi severamente criticada pela Congregação para a Doutrina da Fé, da qual o cardeal Ratzinger era então prefeito. Gustavo Gutiérrez, assim como outros, teria que dar explicações. Em 2004, ao término de um processo de “diálogo” de 20 anos, o mestre da Ordem dos Dominicanos recebeu uma carta em que o cardeal Ratzinger “rende graças ao Altíssimo pela satisfatória conclusão desse caminho de esclarecimento e aprofundamento”.

“Durante aqueles anos, eu podia, mesmo assim, pregar o Evangelho na minha paróquia”, conta Gustavo Gutiérrez, que se dedicava naquela época às suas pesquisas sobre Bartolomeu de Las Casas – “um gênio espiritual”, diz, “que soube ver no índio o pobre segundo o evangelho” –, continuando a sua obra teológica e acompanhando de perto “a nova presença das mulheres, depois dos índios, na cena da história, do pensamento, da que estavam ausentes”.

Teologia como poesia

Hoje, ele reside no convento dos dominicanos de Lima. Divide o seu tempo entre o seu trabalho pastoral, os retiros que prega, os cursos de teologia na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA) e no Studium Dominicano de Lille (França). Mas, incansavelmente, ele continua a sua obra teológica, lendo muito, até mesmo poetas. “A poesia é a melhor linguagem do amor”, confidencia. “Fazer teologia é também escrever uma carta de amor a Deus, à Igreja que eu sirvo e ao povo a que eu pertenço”.

Atualmente, ele está terminando um livro dedicado à opção preferencial pelos pobres. “A teologia da libertação pode até desaparecer”, afirma, “mas, se restar a preferência pelos pobres, nós teremos vencido algo importante, profundamente ligado à Revelação”. Depois, acrescenta, com uma expressão de clara gravidade no rosto: “A pobreza e as suas consequências são sempre o grande desafio do nosso tempo na América Latina e em muitos outros lugares do mundo. Praticar a justiça, trabalhar pela libertação dos seres humanos é falar de Deus. É um ato de evangelização”.

Fonte: Ihu online, 04.04.2012

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Revista Memória e Caminhada – Chamada para apresentação de Artigos

Prezad@s,

A Revista semestral Memória e Caminhada – Estudos sobre as comunidades eclesiais de base (CEBs), religiosidade e os movimentos sociais e populares (ISSN 1806-3802), publicada pelo Portal de Periódicos da Universidade Católica de Brasília – UCB, está recebendo artigos e resenhas para o seu próximo número que irá ao ar no mês de Julho de 2012.

O tema da próxima edição é o seguinte:

“CEBs: romeiras do reino no campo e na cidade”.

O que se propõe é uma análise dos valores e conflitos desta inusitada relação entre cidade e campo, sob os mais diversos ângulos ou realidades que desafiam o futuro das CEBs.

Sugestão de Subtemas ou recortes de reflexão na esfera do Tema Geral:

  • Povos da floresta/ da terra e a questão da urbanização: choques, conflitos, luta, resistência, desafios – relação com a proposta das CEBs
  • Questão ambiental – Mãe-Terra/sustentabilidade… – desafios, perspectivas
  • Êxodo rural/expulsão do campo e urbanização: problemas sociais/culturais…
  • Religiosidade popular e CEBs.

Os trabalhos devem ser enviados para análise para o seguinte e-mail:

revistamc@ucb.br – até o prazo de 30/04/2012.

Para maiores informações sobre as normas da Revista, bem como sobre o formato dos trabalhos, deve-se acessar o link abaixo – Normas Editoriais. Para facilitar a divulgação, o texto desta Chamada de Artigos está, também, lincado abaixo.

Normas Editoriais

Edital de chamada

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A passagem de Deus pela América Latina.

Jon Sobrino, teólogo espanhol, vivendo há muitos anos na América Central, mais precisamente em El Salvador, neste artigo brinda os leitores com uma valiosa reflexão sobre a passagem de Deus pela América Latina, com destaque para os grandes momentos desde Medellin, passando por Puebla até o caminhar das comunidades (igrejas) nos dias atuais. “Como será a passagem de Deus pela América Latina e com quem passará?” É uma das questões que Sobrino pontua no artigo que segue. (R.Thiel)

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Artigo de Jon Sobrino

“Como será a passagem de Deus pela América Latina e com quem passará, está por se ver, e em suma é coisa de Deus. Mas é coisa nossa desejá-la, trabalhar para isso, e aprender de como aconteceu no passado em torno de Medellín”, escreve Jon Sobrino, em artigo publicado no sítio espanhol Eclesalia, 23-02-2012. A tradução é do Cepat.

Jon Sobrino é teólogo espanhol radicado em El Salvador, sobrevivente da chacina que, em novembro de 1989, dizimou a vida de seis jesuítas e duas funcionárias da Universidade Centro-Americana (UCA). É autor de vários livros, entre os quais, Fora dos pobres não há salvação (Paulinas, 2008), Cristologia a partir da América Latina (Vozes, 1983); Jesus, o Libertador: a história de Jesus de Nazaré (Vozes, 1994).

Eis o artigo.

Os dez anos que se passaram entre Medellín (1968) e Puebla (1979) foram únicos na época moderna da Igreja católica na América Latina. Depois começou um declive ao qual Aparecida (2007) quis colocar um freio, embora até agora reste muito a ser feito.

Ao fazer este juízo, não nos fixamos na Igreja assim como é analisada pelos sociólogos, mas na “passagem de Deus”. Sem dúvida, é mais difícil calibrar, mas toca a dimensão mais profunda da Igreja, e a serviço de que deve estar. Em suma, qual a sua contribuição para os seres humanos e para o mundo como um todo. E, obviamente, é preciso se perguntar “que Deus” é que passa pela história em um dado momento. Continuar lendo

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CEBs: nos trilhos da profecia e da justiça

Frei Gilvander Luiz Moreira

Frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica; professor no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA/BH e no Seminário da Arquidiocese de Mariana, MG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina
Texto publicado originalmente em Adital – 22.02.12

No ano dos 50 anos do Concílio Vaticano II, rumo ao 13º Intereclesial das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base – no Ceará, em Crato, atual estação central do trem das CEBs, aconteceu de 23 a 26 de janeiro de 2012 mais um Seminário Nacional das CEBs, com o tema: Justiça e Profecia a serviço da vida, e o lema: CEBs, romeiras do reino no campo e na cidade.

Foi uma beleza a convivência fraterna, a reflexão, a visita ao Caldeirão do beato Zé Lourenço e os fachos de luzes acesos para guiar a marcha do trem das CEBs rumo ao 13º Intereclesial de CEBs que acontecerá de 7 a 11 de janeiro de 2014 em Juazeiro do Norte, CE, terra do padre Cícero e do povo resistente como juazeiro e mandacaru.

Do Seminário das CEBs participaram mais de 100 assessores/ras e representantes das CEBs de todos os estados do Brasil. Durante o Seminário, vi e ouvi muitas belezas espirituais e proféticas. Abaixo, farei referências a algumas.

Em 1984, enquanto eu fazia o noviciado dos frades Carmelitas, no Pernambuco, fomos de pau-de-arara, de Camocim de São Félix, PE, ao Juazeiro do Norte, CE, para conviver com o povo devoto do Padre Cícero durante uma semana. Foi um banho de religião popular que mexe nas cordas mais profundas do humano do povo simples. Passaram-se 28 anos e, eis-me, novamente passando por Juazeiro do Norte. A primeira coisa que me chamou a atenção é o quanto a cidade cresceu e está em franco desenvolvimento, “só para uma minoria”, me alertaram. Transito já ficando caótico. Carretas lotadas de automóveis, faculdades, lojas de transnacionais, shopping etc. Continuar lendo

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