Arquivo da tag: CEBs

Estado cego e surdo aos clamores dos oprimidos

Frei Gilvander

Uma parábola do Evangelho de Lucas narra: “Havia em uma cidade um juiz que não temia a Deus e não tinha consideração para com os homens (os empobrecidos). Nessa mesma cidade, existia uma viúva que vinha a ele, dizendo: ‘Faz-me justiça contra o meu adversário!’” Pergunta o evangelho: “Deus não faria justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite?” (Lc 18,2-3.7). Essa parábola está acontecendo também agora no Brasil, especificamente em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde 1.900 famílias (cerca de 10 mil pessoas) das Ocupações Camilo Torres, Dandara, Irmã Dorothy, Zilah Sposito-Helena Greco e Eliana Silva clamam por direitos humanos a partir do direito a moradia digna. Mas o Estado tem se mostrado cego e surdo aos clamores dos oprimidos que legitimamente lutam para se libertar da cruz do aluguel e da humilhação que é sobreviver de favor. Nos últimos meses desse ano são dezenas de liminares de reintegração emanadas pelo Judiciário mineiro. Só na Vara Agrária de Minas Gerais, em cinco dias, aproximadamente 15 liminares foram expedidas para despejar ocupações rurais.

As 350 famílias da Ocupação Eliana Silva, após serem despejadas, de forma injusta e truculenta pelo prefeito de Belo Horizonte, sr. Márcio Lacerda, pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) e o governador Antonio Anastasia (com caveirão e mais de 400 policiais), sacudiram a poeira e deram a volta por cima. Durante vários dias, pouco a pouco, ocuparam outro terreno abandonado distante 1 km da área despejada. Desta vez, um empresário, com residência em São Paulo, conquistou outra liminar de reintegração de posse. A juíza da 33ª Vara Cível autorizou o uso de força policial e, sem exigir do empresário ou do poder público nenhuma alternativa digna para as famílias, ordenou ao oficial de (In)justiça que tivesse cuidado ao “retirar” as crianças e os idosos. Será que ali existem coisas e não pessoas? Isso é autoritarismo disfarçado de altruísmo. É como o conto da barata: morde e depois assopra. Será que não passou da hora de os juízos, ao invés de mandar retirar, mandar assentar em lugar digno de ser humano morar, com todos os componentes necessários para garantir a dignidade da pessoa humana?

Em uma Audiência Pública na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALEMG), a Defensoria Pública do Estado de Minas e um representante da Comissão dos Direitos Humanos da OAB/MG demonstraram que o empresário não comprovou ter a posse do terreno, e que todos os terrenos onde estão as Ocupações Camilo Torres, Irmã Dorothy e a Nova Ocupação Eliana Silva, e vários outros terrenos abandonados da região, áreas contíguas, tratam-se de terras que tinham por vocação original a construção de fábricas e indústrias a fim de cumprirem a função social econômica da cidade.

Todavia, desde as décadas de 80 e 90 do século XX, estas terras foram paulatinamente repassadas do poder público para o particular, e nunca foi construído nada em cima delas. Nos terrenos onde se planejou(?) criar o Distrito Industrial do Vale do Jatobá, de fato, há 20 anos, vem acontecendo grilagem de terra e especulação imobiliária. Em 1992, a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (CODEMIG) – empresa pública de capital misto – repassou para empresas vários terrenos, alegando que seria para a criação do Distrito Industrial do Vale do Jatobá, em Belo Horizonte. Por preço irrisório e sem licitação, as vendas foram feitas, mas com cláusula contratual que exigia a construção de empreendimento industrial para gerar emprego na região dentro de um ou dois anos. Passaram-se 20 anos e nenhuma empresa construiu nada nos terrenos. As várias empresas que compraram da CODEMIG especularam e depois venderam para outras empresas que, após acumularem lucro, venderam para outras empresas que, após especular mais, venderam para outras empresas, que deixaram os imóveis em situação de completo abandono. Por lá especularam, inclusive, o Banco Rural e o Bradesco.

Enquanto isso, o déficit habitacional em Belo Horizonte está acima de 150 mil moradias. Só no primeiro dia de cadastramento para o Programa Minha Casa Minha Vida, há 3 anos atrás, 198 mil famílias se inscreveram. O prefeito Márcio Lacerda não fez nenhuma casa pelo Programa Minha Casa Minha Vida para famílias de zero a três salários mínimos. Pior: inventou o Programa Minha Pedra Minha Vida, pois, com dinheiro público e usando o suor – força de trabalho – dos pobres, mandou colocar pedras pontiagudas de concreto debaixo de viadutos da capital mineira para impedir que os mais de dois mil irmãos/ãs nossos/as que sobrevivem nas ruas de Belo Horizonte durmam debaixo dos viadutos.

Eis uma amostra da especulação que vem ocorrendo nesses terrenos. Segundo o professor Dr. Fábio Alves, histórico defensor dos direitos humanos dos pobres: “O imóvel objeto da contenda judicial que envolve a Ocupação-comunidade Irmã Dorothy pertencia ao Estado de Minas Gerais, através da Companhia de Distritos Industriais, atual CODEMIG. Em dezembro de 2001, a CDI-MG – Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais – celebrou contrato com a empresa PARR Participações Ltda., com sede em São João Nepomuceno, pelo qual o imóvel constituído pelo lote 26 do quarteirão 155 do Bairro Jatobá, Distrito Industrial, seria transferido para referida empresa, sob a condição de, no prazo de 20 meses, ser realizado no local um empreendimento industrial, gerando empregos na região. Exatos cinco meses após a celebração do referido contrato, a empresa PARR Participações Ltda, contando com a anuência da CDI-MG, transfere o imóvel para o Banco Rural S/A, como doação em pagamento. Da CDI (atual CODEMIG), a dita empresa adquiriu o imóvel pelo valor de R$ 121.000,00 e o repassou para o Banco Rural, cinco meses depois, por R$ 600.000,00. Mais do que 500% acima do valor pelo qual o Estado, por meio da CDI, repassou o imóvel ao particular. O encargo da implantação de um empreendimento industrial na área, outrora pública, foi remetido ao esquecimento. Assim, matreira e astutamente, um bem público é transferido para o particular, sem que a sua destinação seja alcançada. Transcorridos os vinte meses estabelecidos na cláusula, nada foi feito no local, e os anos se passaram desde então sem que fosse dada nenhuma destinação ao imóvel. Seis anos depois, sem que o encargo tenha sido cumprido, a mencionada CODEMIG, sucessora da CDI, permaneceu inerte. Nada fez para reverter ao patrimônio público o imóvel em questão. Pois bem, embora assentado em explícita ilegalidade, o Banco Rural S/A celebra, em 2007, Contrato Particular de Compra e Venda com a empresa Tramm Locação de Equipamentos Ltda. e outras pessoas físicas pelo valor de R$ 180.000,00. Três anos se passaram sem que sequer a Escritura de Compra e Venda tivesse sido providenciada. O imóvel, por mais de dez anos, restou em completo abandono. O local servia unicamente para bota-fora de resíduos sólidos. Fica o registro no fato de o Banco Rural ter recebido o imóvel pelo valor de 600 mil reais e o ter prometido em venda por apenas 180 mil reais. Em fevereiro de 2010, a empresa Tramm e outras pessoas físicas, sem que proprietários fossem do imóvel, celebram Contrato de Promessa de Compra e Venda com a Asacopr Empreendimentos e Participações S/A, pelo valor de R$ 580.000,00. Também esta nova empresa sequer pôs uma estaca no local. O terreno continua, em parte sendo depósito de entulhos. Em outra parte, passou a abrigar famílias que ali foram se instalando como extensão da comunidade Camilo Torres. Dessa extensão da comunidade surgiu a Comunidade Irmã Dorothy. A Asacopr Empreendimentos e Participações S/A ingressou, junto ao município de Belo Horizonte, com pedido de aprovação de projeto habitacional a ser financiado pela Caixa Econômica Federal. Há de se sublinhar que a região em que se encontra o imóvel é destinada a indústria e não a residência, conforme Plano Diretor do Município de Belo Horizonte”.

Outro empresário também requereu reintegração de posse, alegando que a Nova Ocupação Eliana Silva ocupou parte dos 15.800 metros quadrados que ele diz ter comprado da CODEMIG, mas a CODEMIG move ação judicial contra ele visando retomar o terreno porque ele não construiu nenhum empreendimento industrial no local.

O Ministério Público e a Defensoria Pública de Minas ajuizaram três Ações Civis Públicas questionando essas transferências de imóveis pela CODEMIG, mas o Judiciário mineiro ignora essas irregularidades e continua determinando o desalojamento das famílias que vivem nesses terrenos. O governador de Minas pode e deve declarar a nulidade desses contratos. Não precisa esperar a morosidade cúmplice da (In)Justiça. Só haverá paz com justiça social quando todos os terrenos do que seria (?) o Distrito Industrial do Vale do Jatobá forem destinados para um grande programa habitacional que vise a atender famílias com renda de zero a três salários mínimos. Por isso luta o MLB , a Nova Ocupação Eliana Silva, Camilo Torres e Irmã Dorothy, e muitos militantes.

Em Audiência Pública realizada na ALEMG para apurar essas irregularidades, exigimos a criação de uma CPI para apurar as ações do Estado e de empresas que especulam com terras públicas onde seria (?) o Distrito Industrial do Vale do Jatobá, em Belo Horizonte. Também de acordo com o princípio da autotutela dos atos administrativos, o Estado de Minas Gerais, tendo conhecimento do fato, já deveria ter anulado os atos eivados de vícios e que representam danos ao patrimônio público. Os bens públicos devem ser usados para o bem estar das pessoas. A dignidade da pessoa humana não é um dos fundamentos do Estado? (Art. 1º da CF/88). Diante das câmeras da TV Assembleia, mães, com suas crianças no colo, alertaram com palavras de fogo: “Vejam aqui: minhas filhas são de carne de osso. A Nova Ocupação Eliana Silva e o MLB são a nossa causa agora. Lá em poucos dias já construímos a creche de alvenaria. Assim, posso ir trabalhar em paz, pois sei que minhas crianças estão sendo bem cuidadas na creche. Naquele terreno abandonado construiremos nossas casas. De lá só saímos no saco preto”. “Minha filhinha, agarrada em mim, diante do paredão da tropa de choque me perguntou assustada: ‘mãe, pra que tanta polícia? Tem bandido aqui no nosso meio?’ Tive que responder para minha filha: ‘eles estão achando que nós somos bandidos.’ Minha filha me deu um beijo e me disse: “mamãe, a senhora não é bandida. A senhora é trabalhadora. A senhora cuida de nós”.

Felizes os que ouvem os clamores dos oprimidos e se tornam próximos de quem clama por Justiça! Aí de quem é vassalo de um Estado cego e surdo aos gritos de mães que, por amor aos seus filhos, lutam por um elementar direito: o de morar com dignidade. Em tempo: Por que a Imprensa não trata da questão abordada acima? “É a censura”, me dizem muitos.

Eis, abaixo, links de sete vídeos que corroboram o analisado e denunciado acima. Os vídeos estão também em www.gilvander.org.br (Galeria de vídeos).

1) Audiência da Ocupação Eliana Silva na ALEMG: Arquiteto desmascara Márcio Lacerda. 07/09/2012

2) Rede de apoio à Ocupação Eliana Silva: Wiliam, das Brigadas, e Bizoca, do IHG. 07/09/2012

3) Fila do Povo da Ocupação Eliana Silva, na ALEMG: Mães e Crianças clamam por moradia. 06/09/2012

4) Dr. Elcio Pacheco- Comissão de Direitos Humanos/OAB/MG- defende Ocupação Eliana Silva.

5) Defensoria Pública de MG defende Ocupação Eliana Silva na ALEMG: Ilegalidades. 06/09/2012

6) Audiência na ALEMG sobre Ocupação Eliana Silva – vídeo 2: despejo? Leo do MLB. 06/09/2012

7) Ocupação Eliana Silva em Audiência Pública: Leonardo e MLB denunciam injustiças. 05/09/2012

 

Gilvander Luís Moreira é frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.br www.gilvander.org.br  www.twitter.com/gilvanderluis – facebook: gilvander.moreira

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em CEBs

DEVOÇÃO.

Com o uso de depoimentos de historiadores, pesquisadores, autoridades do candomblé, freis e devotos do catolicismo, o filme tem como propósito mostrar aspectos que contribuam para o debate polêmico sobre o sincretismo das religiões existentes no Brasil, que se evidencia, sobretudo, após a chegada dos escravos negros vindos da África.

De acordo com a história, os africanos eram obrigados a seguir os ensinamentos da Igreja Católica logo que desembarcassem em terras brasileiras, mesmo que pertencessem a outras tribos ou culturas. Desse modo, eles se viam forçosamente divididos entre duas religiões –situação que permitiu o surgimento de uma analogia entre santo Antônio (o mais popular do catolicismo) e Ogum (importante orixá africano) e colocou em questão a legitimidade de se cultuar os orixás como se fossem santos católicos.

Opiniões de devotos do candomblé e do catolicismo são exibidas junto a imagens feitas em terreiros e durante a celebração de missas para enfatizar a fé existente em cada uma das crenças, independentemente de suas diferenças ou similaridades.

O documentário, que não contém narração do autor, foi filmado entre abril e junho de 2007 no Rio de Janeiro (RJ). Em 85 minutos, muito mais do que rever mitos e colocar lado a lado as peculiaridades de cada uma das crenças, o filme deixa claro a singularidade da cultura brasileira.

Direção: Sérgio Sanz. Duração: 85 minutos Classificação etária: livre.

Fonte:http://raizafricana.wordpress.com/2009/08/30/trailer-do-documentario-devocao/

BOA SESSÃO:

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Profecia: a partir dos pobres

Frei Gilvander Luís Moreira, das Minas Gerais, é frei carmelita, expert em interpretação bíblica do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI), assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT), com presença marcante em outras instituições eclesiais. No texto que colocamos à sua disposição, Frei Gilvander apresenta uma reflexão muito pertinente e muito rica sobre a temática da profecia, sob a ótica dos oprimidos, a partir do olhar e da realidade dos empobrecidos. Convida para revisitar algumas profecias bíblicas significativas, situadas no contexto do pobres, a partir dos sonhos e esperanças dos pobres, de quem carinhosamente Javé “escuta o clamor, e desce para socorrê-los e libertá-los” (Ex 3,7ss).

Leia na íntegra o texto de Gilvander…..

_________________________________________

Profecia: a partir dos pobres.

Gilvander Luís Moreira[1]

 

Palavra de Javé: consolai os aflitos e afligi os consolados! Ninguém pode tocar o corpo dos escritos proféticos sem sentir a batida do coração divino.

 

A Bíblia, se interpretada com sensatez e a partir dos pobres, nos educa para a vivência profética, o que passa necessariamente por construir uma convivência humana e ecológica onde o bem comum seja um princípio básico seguido.

Os grandes desafios da realidade social, eclesial e eclesiástica para as pessoas cristãs que se engajam nas lutas sociais e na construção de uma sociedade justa, solidária, ecumênica e sustentável, – também construção de uma igreja Povo de Deus -, me fazem recordar também os desafios de muitos profetas e profetisas da Bíblia e de suas profecias.

Quando o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST – ou os movimentos populares que fazem ocupações urbanas realizam ações radicais – não extremistas, mas aquelas que, de fato, vão à raiz dos problemas e, por isso, ferem o coração da idolatria do capital – o ódio dos poderosos despeja-se sobre os militantes dos movimentos populares. Isso faz acordar em mim profecias bíblicas, como das parteiras do Egito, dos profetas Elias, Amós, Miqueias e do galileu de Nazaré.

Quantos de nós já nos dispusemos a fazer a experiência de viver sob lonas pretas e gravetos – em condições similares aos animais no meio do mato, ou em condições piores do que nas favelas? Quem de nós já viveu à beira das estradas, em lugares ermos e remotos, sujeitos aos ataques noturnos repentinos? Quantos já permaneceram em um acampamento do MST por mais de um dia, observando o que comem (e, sobretudo, o que deixam de comer), o que lhes falta, como são suas condições de vida? Quantos já viram o desespero das mães procurando, aos gritos, pelos filhos enquanto o acampamento arde em fogo às 3 da madrugada, atacado por jagunços?

 Sentindo-me na pele dos sem-terra e dos sem-casa, convido você para visitar algumas profecias bíblicas das parteiras, de Elias, Amós, Miqueias e Jesus de Nazaré, na esperança de que possam iluminar nossas consciências e aquecer nossos corações para discernirmos o que é preciso fazer, como fazer e comprometermo-nos de fato com a causa dos pobres que, com fé libertadora, lutam por direitos humanos, por uma terra sem males.

Uma premissa básica: nosso Deus é transdescendente. Muitos perguntam: se Deus existe e é todo poderoso, por que permite tanta dor, tanta violência e sofrimento no mundo? Deus é sádico? Está sentado na arquibancada, de braços cruzados, vendo o sangue do inocente verter na arena da vida? Deus não faz nada? Um sábio, ao ouvir essas interpelações, respondeu: Deus fez e faz todos nós para sermos no mundo expressão do Deus que é infinito amor. A única força que Deus tem é o amor, que aparenta ser a realidade mais frágil, mas é a mais poderosa do mundo. Só o amor constrói.

JESUS se tornou tão humano que acabou se divinizando. Pelo seu relacionamento íntimo com o Pai, ao qual chamava de papai (abbáh, em hebraico), Ele nos revela uma característica fundamental que perpassa toda a experiência do povo de Deus da Bíblia: o Deus comprometido com os pobres é um Deus transdescendente, não apenas transcendente – sua transcendência se esconde na imanência, o divino no humano. A partir do Êxodo, constatamos como Javé é um Deus que ouve os clamores dos oprimidos e desce para libertá-los (Êxodo 3,7-9). No início do Gênesis, o Espírito está nas águas, permeia e perpassa tudo (Gênesis 1,2). Em Jesus de Nazaré, tendo “nascido de mulher” (Gálatas 4,4), Deus se encarna, descendo e assumindo a condição humana. No Apocalipse, Deus larga o céu, desce, arma sua tenda entre nós e vem morar conosco definitivamente (Apocalipse 21,1-3). Logo, um movimento de transdescendência perpassa toda a Bíblia. Esta característica se reflete em Jesus e continua nas pessoas cristãs de verdade.

Profecia é sussurro de Deus. Os oráculos proféticos, normalmente, são introduzidos com uma fórmula característica: “Assim disse Javé….” ou “Oráculo de Javé” (Jr 9,22-23). A expressão “ne’m YAHWEH”, em hebraico, geralmente traduzida por “oráculo de Javé” ou “Palavra de Javé”, significa “sussurro, cochicho de Deus no ouvido do profeta ou da profetisa”. Para entender um cochicho, um sussurro, é preciso fazer silêncio, prestar muita atenção, estar em sintonia, ter proximidade, ser amiga/o. Logo, Deus não falava claramente aos profetas, como nós, muitas vezes pensamos. Deus fala hoje para – e em – nós do mesmo modo que falava aos profetas e às profetisas. Deus cochicha (sussurra) em nossos ouvidos, sempre a partir da realidade do pólo enfraquecido, na trama complexa das relações e estruturas humanas.

Precisamos colocar nossos ouvidos e nosso coração pertinho do coração dos violentados, para que nossas palavras possam refletir algo da vontade do Deus da vida. Mais que fazer cursos de oratória, precisamos de cursos de “escutatória”. Para ouvir os clamores mais profundos dos empobrecidos é necessário conviver com eles.


[1] Frei e padre carmelita; mestre em Exegese Bíblica; professor do Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos, no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA -, em Belo Horizonte – e no Seminário da Arquidiocese de Mariana, MG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina; e-mail: gilvander@igrejadocarmo.com.brwww.gilvander.org.brwww.twitter.com/gilvanderluis – facebook: gilvander.moreira

Deixe um comentário

Arquivado em Boa Leitura

The Corporation ( A Corporação)

O filme The Corporation (A Corporação) é um excelente documentário crítico, que, ao longo de seus 144 minutos de duração, vai revelando os meandros da criminalidade do mundo corporativo contemporâneo. Os autores fazem uma boa análise dos poderes e do funcionamento das grandes corporações como “seres” autônomos, pessoas jurídicas, que agem de acordo com um conjunto bem específico e determinado de regras e motivações, que distam dos princípios que regem as relações entre os mortais comuns. Elas compram, vendem, alugam, acionam judicialmente, capitalizam ganhos, incorporam patrimônio etc, tal como procedem as pessoas físicas no comum do dia a dia, porém, não possuindo um corpo físico bem determinado, e nem alma. A exploração da mão de obra barata no Terceiro Mundo, bem como a destruição do meio ambiente são alguns dos temas explorados. Assim agem unicamente em função da aquisição do lucro máximo, o que transparece claramente nas entrevistas feitas com presidentes de grandes corporações como a Nike, Shell e IBM. Também contribuem para essa análise crítica figuras como Noam Chomsky, Milton Friedman, Michael Moore, Naomi Klein e outros que estão no elenco do filme.

É o filme que sugerimos aos seguidores e leitores de nosso blog. É um esforço que vale á pena!

Ficha técnica completa: http://hellocoolworld.com/files/TheCorporation/completecredits.pdf

Site do Filme: http://www.thecorporation.com

 Veja no Youtube:

Deixe um comentário

Arquivado em Filmes

Gustavo Gutiérrez, o pai da teologia da libertação

Certamente todos nós já ouvimos alguma vez falar em Gustavo Gutierrez. Seu nome está ligado à Teologia da Libertação, nascida na América Latina, e que alimentou e continua alimentando a caminhada das Comunidades Eclesiais de Base, pelo Brasil, pela América Latina e pelo mundo afora.

Leia a entrevista com Gutiérrez, publicada há poucos dias, pelo Instituto Humanitas Unisinos.

Gustavo Gutiérrez, o pai da teologia da libertação

Ele é um dos teólogos mais importantes do século XX. O dominicano peruano explica por que consagrou sua vida ao reencontro de Deus e dos pobres.

A reportagem é de Martine De Sauto, publicada no jornal La Croix, 24-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele avançou um pouco cansado, apoiou na mesa a sua bengala preta que ele nunca abandona, e se sentou. De passagem por Paris, por ocasião do 50º aniversário do Comitê Episcopal França-América Latina (Cefal), Gustavo Gutiérrez, considerado o “pai” da teologia da libertação, já se encontrou com missionários, estudantes e professores do Institut Catholique de Paris, responsáveis pelo Secours Catholique, parceiro do CCFD [Comitê Católico contra a Fome e pelo Desenvolvimento].

Na manhã do dia 24, na sala da casa provincial dos sulpicianos onde ele se hospedava, ele evocou de novo aquela teologia que marcou profundamente a Igreja latino-americana. Falar de si mesmo não é um de seus hábitos. Mas, nessa manhã em que a primavera [europeia] clareava as velhas paredes da sala, esse pequeno homem, simples, amável, aceitava fazer o relato da sua vida. O encontro durou quase três horas. Também poderia ter continuado. Gustavo Gutiérrez não estava mais cansado.

Ele nasceu em Lima, no Peru. Com apenas 12, por causa de uma osteomielite, ficou preso à cama durante vários anos. “Não havia antibióticos. Eu era aluno dos Irmãos Maristas. Tive que abandonar a escola”. Estudava em casa, jogava xadrez, lia. “Meu pai era um grande leitor”, lembra. “Seguramente, ele me influenciou. Dele também herdei o senso de humor, que ele sempre mostrava, apesar das nossas dificuldades”.

Aos 15 anos, descobriu Pascal, que o marcou permanentemente. E, pouco tempo depois, a História de Cristo, de Giovanni Papini, que o tocou profundamente. Interessou-se também por filosofia e psicologia através dos escritos de Karl Jaspers e de Honorio Delgado. O desejo de se tornar padre, que ele tivera no início da doença, o deixara. No entanto, entrou aos 14 anos na Ordem Terceira Franciscana. “A pobreza já estava presente na minha vida de filho de família modesta, marginalizado pela doença, e nas minhas escolhas”, observa.

Aos 18 anos, pôde finalmente ir para a universidade estudar medicina (com o desejo de se tornar psiquiatra) e filosofia. “Membro do movimento universitário católico, eu participava ativamente da vida política da universidade”, lembra. “Foi então que ouvi na minha vida perguntas que questionavam a minha fé. Aos 24 anos, eu escolhi me tornar padre. O bispo de Lima, considerando-me muito velho para o seminário, me mandou para a Europa”.

Em Leuven, aprendeu francês, escreveu uma tese sobre Como Freud chegou à noção de conflito psíquico. Depois, se transferiu para Lyon para estudar teologia. “Era um período difícil na Igreja francesa, mas muito rico”, diz, “que me permitiu encontrar Albert Gelin (cujos trabalhos sobre os ‘Pobres de Javé’ orientaram as minhas pesquisas), Gustave Martelet e dominicanos (como Marie-Dominique Chenu, Christian Duquoc… e também aqueles da minha geração, como Claude Geffré). Muitos anos depois, quando eu tomaria a decisão de entrar na Ordem dos Pregadores, um dos meus amigos de então, padre Edward Schillebeeckx, dominicano flamengo, me escreveria uma carta que começava assim: ‘Finalmente!'”.

Viver em solidariedade com os pobres

Enquanto isso, ordenado sacerdote, Gustavo Gutiérrez voltou ao Peru. Nomeado a uma paróquia do bairro pobre de Rimac, em Lima, e capelão dos movimentos cristãos, ele se dedicou ao seu trabalho pastoral, dando aulas também na universidade católica. Mas já havia um problema que o atormentava: como dizer ao pobre que Deus o ama?

Em maio de 1967, dois anos depois do Concílio, do qual participou, ele abordará essa questão diante dos estudantes da Universidade de Montreal, distinguindo pela primeira vez três dimensões da pobreza. A pobreza real de todos os dias: “Ela não é uma fatalidade”, explica, “mas sim uma injustiça”. A pobreza espiritual: “Sinônimo de infância espiritual, consiste em colocar a própria vida nas mãos de Deus”. A pobreza como compromisso: “Ela leva a viver em solidariedade com os pobres, a lutar com eles contra a pobreza, a anunciar o Evangelho a partir deles”.

Para explicar a ideia, ele se concede um pouco mais de tempo, atento a não pular alguma etapa. “No ano seguinte, eu ainda tinha que dar uma conferência em Chimbote, no Peru. Haviam-me pedido para falar sobre a teologia do desenvolvimento. Expliquei que uma teologia da libertação era mais apropriada”. Essa linguagem teológica, que leva em consideração o sofrimento dos pobres, inspiraria os bispos reunidos em Medellín (Colômbia) para a segunda Conferência do Episcopado Latino-americano (Celam)

Nasce a teologia da libertação

Em maio de 1969, Gustavo Gutiérrez foi para o Brasil, que vivia então as horas mais escuras da ditadura militar. Ali encontrou estudantes, militantes da Ação Católica, padres cujo testemunho enriqueceriam a sua reflexão que desembocou na sua obra fundamental: Teologia da Libertação. “Antes do Concílio”, especifica, “João XXIII havia anunciado: a Igreja é e quer ser a Igreja de todos, e particularmente a Igreja dos pobres”. Os padres conciliares, preocupados com o problema da abertura ao mundo moderno, esqueceram-no um pouco. Na América Latina, essa intuição foi retomada. Os pobres começavam a se fazer sentir. “Muitos de nós víamos neles um sinal dos tempos que era preciso perscrutar, como pede a constituição Gaudium et Spes. Por causa da minha idade, da minha presença no Concílio e em Medellín, eu é que fiz um trabalho de teólogo. Mas poderia ter sido outro”.

A libertação da qual Gustavo Gutiérrez fala não é um programa político. Ela se situa em três níveis que se cruzam. O nível econômico: é preciso combater as causas das situações injustas. O nível do ser humano: não basta mudar as estruturas, é preciso mudar o ser humano. O nível mais profundo, teologal: é preciso se libertar do pecado, que é a recusa de amar a Deus e ao próximo.

Quanto à teologia, ela é o meio para fazem com que o compromisso com os pobres seja uma tarefa evangélica de libertação, uma resposta aos desafios que a pobreza coloca diante da linguagem sobre Deus. Essa teologia se revela contagiosa. Nos Estados Unidos, na minoria negra, na África, na Ásia, teologias desses “terceiros mundos” se despertam, impulsionadas por um novo fôlego.

Uma vida pelos pobres

Mas essa teologia também se choca com oposições. As mais violentas vêm dos poderes econômicos, políticos e militares da América Latina, assim como nos EUA. Mas também vêm de católicos que a acusam de fazer referência, ao analisar certos aspectos da pobreza, à teoria da dependência, que usava noções provenientes da análise marxistas.

Na conferência do Celam em Puebla (1979), que confirma a visão de Medellín e fala da “opção preferencial pelos pobres”, manifestam-se resistências também dentro da Igreja latino-americana. “Medellín”, reconhece Gustavo Gutiérrez, “foi uma voz muito profética que provocou compromisso e resistências. Mas quando uma Igreja é capaz de ter entre os seus membros pessoas que dão a sua vida pelos pobres, como Dom Oscar Romero e muitos outros, há algo de importante que acontece nessa Igreja”.

A teologia da libertação também sofreria por causa das posições do Vaticano. Em 1984, ela foi severamente criticada pela Congregação para a Doutrina da Fé, da qual o cardeal Ratzinger era então prefeito. Gustavo Gutiérrez, assim como outros, teria que dar explicações. Em 2004, ao término de um processo de “diálogo” de 20 anos, o mestre da Ordem dos Dominicanos recebeu uma carta em que o cardeal Ratzinger “rende graças ao Altíssimo pela satisfatória conclusão desse caminho de esclarecimento e aprofundamento”.

“Durante aqueles anos, eu podia, mesmo assim, pregar o Evangelho na minha paróquia”, conta Gustavo Gutiérrez, que se dedicava naquela época às suas pesquisas sobre Bartolomeu de Las Casas – “um gênio espiritual”, diz, “que soube ver no índio o pobre segundo o evangelho” –, continuando a sua obra teológica e acompanhando de perto “a nova presença das mulheres, depois dos índios, na cena da história, do pensamento, da que estavam ausentes”.

Teologia como poesia

Hoje, ele reside no convento dos dominicanos de Lima. Divide o seu tempo entre o seu trabalho pastoral, os retiros que prega, os cursos de teologia na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA) e no Studium Dominicano de Lille (França). Mas, incansavelmente, ele continua a sua obra teológica, lendo muito, até mesmo poetas. “A poesia é a melhor linguagem do amor”, confidencia. “Fazer teologia é também escrever uma carta de amor a Deus, à Igreja que eu sirvo e ao povo a que eu pertenço”.

Atualmente, ele está terminando um livro dedicado à opção preferencial pelos pobres. “A teologia da libertação pode até desaparecer”, afirma, “mas, se restar a preferência pelos pobres, nós teremos vencido algo importante, profundamente ligado à Revelação”. Depois, acrescenta, com uma expressão de clara gravidade no rosto: “A pobreza e as suas consequências são sempre o grande desafio do nosso tempo na América Latina e em muitos outros lugares do mundo. Praticar a justiça, trabalhar pela libertação dos seres humanos é falar de Deus. É um ato de evangelização”.

Fonte: Ihu online, 04.04.2012

1 comentário

Arquivado em CEBs

Hora do Planeta 2012 convoca brasileiros a mostrarem sua preocupação com o meio ambiente e refletirem sobre os efeitos de suas ações no mundo

Pelo quarto ano consecutivo, o WWF-Brasil convoca a população brasileira a participar do movimento mundial Hora do Planeta, que levou 1 bilhão de pessoas a apagarem as luzes em todo o mundo, em 2011. A mobilização tem como objetivo a reflexão sobre o aquecimento global e os problemas ambientais que a humanidade enfrenta. A campanha conta com patrocínio do Pão de Açúcar e da TIM e adesão de diversas companhias e municípios. Cidades e empresas interessadas em apoiar a iniciativa podem se cadastrar pelo http://www.horadoplaneta.org.br. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em CEBs

Revista Memória e Caminhada – Chamada para apresentação de Artigos

Prezad@s,

A Revista semestral Memória e Caminhada – Estudos sobre as comunidades eclesiais de base (CEBs), religiosidade e os movimentos sociais e populares (ISSN 1806-3802), publicada pelo Portal de Periódicos da Universidade Católica de Brasília – UCB, está recebendo artigos e resenhas para o seu próximo número que irá ao ar no mês de Julho de 2012.

O tema da próxima edição é o seguinte:

“CEBs: romeiras do reino no campo e na cidade”.

O que se propõe é uma análise dos valores e conflitos desta inusitada relação entre cidade e campo, sob os mais diversos ângulos ou realidades que desafiam o futuro das CEBs.

Sugestão de Subtemas ou recortes de reflexão na esfera do Tema Geral:

  • Povos da floresta/ da terra e a questão da urbanização: choques, conflitos, luta, resistência, desafios – relação com a proposta das CEBs
  • Questão ambiental – Mãe-Terra/sustentabilidade… – desafios, perspectivas
  • Êxodo rural/expulsão do campo e urbanização: problemas sociais/culturais…
  • Religiosidade popular e CEBs.

Os trabalhos devem ser enviados para análise para o seguinte e-mail:

revistamc@ucb.br – até o prazo de 30/04/2012.

Para maiores informações sobre as normas da Revista, bem como sobre o formato dos trabalhos, deve-se acessar o link abaixo – Normas Editoriais. Para facilitar a divulgação, o texto desta Chamada de Artigos está, também, lincado abaixo.

Normas Editoriais

Edital de chamada

Deixe um comentário

Arquivado em Boa Leitura

“El Orden Criminal del Mundo” – A Ordem Criminosa do Mundo

É um cxcelente documentário exibido pela TVE espanhola, que apresenta  a visão crítica de dois grandes pensadores humanistas contemporâneos sobre o mundo da modernidade atual: Eduardo Galeano e Jean Ziegler. Seus depoimentos apresentam um caráter de certa forma profético, pois que este documentário foi produzido antes da atual crise que está atingindo o velho continente, particularmente as populações dos países periféricos, como Portugal, Espanha, Grécia entre outros.

O documentário enfoca com muita clareza o cinismo assassino que dia após dia vai enriquecendo uma pequena oligarquia mundial às custas da miséria de cada vez mais pessoas pelo mundo. Poucos ricos cada vez mais ricos em detrimento de muitos pobres cada vez mais pobres, condenados à exclusão e à invisibilidade.  Concentração de poder de forma cada vez mais autoritária em poucas mãos, restringindo e controlando cada vez mais os direitos das pessoas. Corporações sempre mais poderosas controlando os governos de praticamente todo o planeta, e com o generoso apoio de instituições como FMI, OMC e Banco Mundial, alinhadas na defesa de seus interesses.

Convidamos para ver o documentário, de aproximadamente 45 minutos, legendado em português, fazendo a sua análise a respeito.  E quem sabe o recomende a seus amigos e conhecidos…

(R.Thiel)

1 comentário

Arquivado em Filmes

8 de Março

Muitas são as formas utilizadas para prestar homenagens, pela passagem do Dia Internacional da Mulher, amanhã.

Inúmeros seminários, congressos, simpósios, celebrações, concentrações, caminhadas, passeatas, debates, manifestações de matizes distintos, buscando fortalecer a luta pela dignidade da mulher, pelo respeito à sua dignidade de companheira lado a lado, e não abaixo nem acima. Ainda persistem tantas manifestações de dominação masculina de homens e também de mulheres, de imposição, de opressão, de intolerância, de incompreensão, de diminuição, de silenciamento, de eliminação, e tantas outras formas de violência que destroem e negam o grande desejo do Criador: “Criou-os a sua imagem e semelhança. E criou-os homem e mulher”.

Tanta coragem que é necessária para denunciar, protestar, exigir o direito de decidir sobre si, sobre sua vontade, seu corpo e sua sexualidade, sobre sua visibilidade e autonomia! Quanta coragem reunir no caminho do “tornar-se mulher”, como diz Simone de Beauvoir!

Parabéns pela insistência e persistência nessa luta, para tornar este mundo mais humano, de mulheres e homens que nâo se aniquilam e nem se inimizam, mas se constroem e reconstroem o tempo todo, favorecendo e fortalecendo a livre circulação da seiva vital do amor compartilhado!

Completando a homenagem, um texto da pastora Nancy Cardoso, publicado no boletim notícias do CEBI.

(R.Thiel)

————————————————————————————————-

No dia 8: luta e indignação

Nancy Cardoso Cebi – 06/março/12 (Nancy Cardoso Pereira é pastora metodista e colaboradora do CEBI. É autora de À procura da Moeda perdida e de Remover pedras, plantar roseiras, fazer doces)


Dia de luta dos movimentos internacionalistas de mulheres, o 8 de março nunca foi um dia fácil de engolir! Entre o fim de fevereiro e o começo de março as mulheres socialistas dos inícios de 1900 na Rússia, na Europa e nos Estados Unidos celebravam seu dia de luta a partir de acontecimentos importantes: greves, manifestações, enfrentamentos!

Em plena Guerra Mundial, em 1917, na Rússia, as mulheres socialistas realizaram seu Dia da Mulher no dia 23 de fevereiro, pelo calendário russo. No calendário ocidental, a data correspondia ao dia 8 de março. Neste dia, em Petrogrado, um grande número de mulheres operárias, na maioria tecelãs e costureiras, contrariando a posição do Partido, que achava que aquele não era o momento oportuno para qualquer greve, saíram às ruas em manifestação; foi o estopim do começo da primeira fase da Revolução Russa, conhecida depois como a Revolução de Fevereiro.

O que elas queriam? O que nós queremos?

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em CEBs

Sul do Amazonas – o reinado da pistolagem!

A grilagem de terra corre solta! A derrubada ilegal e roubo de madeira não tem freio! Além de outras agressões à natureza na região. Na região de Lábrea, das mais conflitivas no sul do Amazonas, funcionários do INCRA são ameaçados e impedidos de trabalhar, lideranças populares e sindicais que lutam em defesa da terra, da floresta, estão na lista dos “marcados para morrer”, e mortas com frequência, sem que ninguém tome medidas eficazes para proteger a vida dos que têm os dias contados, por força da “lei do gatilho”, que continua imperando na região. Onde está o Estado para garantir o direito de viver? Um depoimento…

“Em junho de 2010, durante vistoria no assentamento Gedeão, sul do Amazonas, a líder Nilcilene Miguel de Lima foi agredida na frente de uma funcionária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Isso aconteceu enquanto ela mostrava um desmatamento dentro do assentamento. Surpreendida por um pistoleiro, Nilcilene levou socos, chutes e tapas no ouvido que lhe tiraram parte da audição. A funcionária do Incra tentou intervir e levou um soco no peito. As duas correram para o carro e fugiram. Nilcilene foi para a delegacia mais próxima fazer boletim de ocorrência e de corpo de delito. A funcionária do Incra voltou para Manaus e pediu transferência. O agressor e o desmatador nunca foram punidos”.

Veja o apelo veemente de Nilcilene, que sabe de seu destino, o mesmo de dezenas/centenas de lideranças comunitárias e defensoras da floresta. Até quando esse tipo de criminosos continuarão reinando impunes?  Quando serão tomadas providências enérgicas e efetivas? Quando for tarde demais? Quem vai fazê-lo? O que nós podemos fazer de imediato para ajudar a salvar a vida de Nilcilene (Lábrea – Amazonas), de Laísa (irmã de Maria do Espírito Santo, e cunhada de José Cláudio, casal de extrativistas assassinados em 2011, em Nova Ipixuna – Pará)?

Seguem um vídeo e um texto para ativar a reflexão.

(R.Thiel)

————————————————————————————————-

Reportagem de Ana Aranha, de A PÚBLICA – AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO.

————————————————————————————————-

Sul do Amazonas: Nilcilene, com escolta e colete à prova de balas: ‘eles vão me matar’

Publicado em março 2, 2012 por HC em Eco Debate

Liderança na Amazônia ganha proteção da Força Nacional, mas vive acuada por ameaças. À sua volta, madeireiros e grileiros seguem livres.

– Nesse rio aqui também apareceu um morto, levou 13 dias para virem retirar o corpo. A gente espantava os urubus com uma palha.

Com colete à prova de balas, chacoalhando no banco de trás da viatura da Força Nacional de Segurança, essa é a quarta vez que a produtora e líder rural Nilcilene Miguel de Lima aponta lugares onde encontrou corpos furados a bala nas estradas do sul de Lábrea, município do Amazonas. “Já teve vez que não apareceu ninguém para buscar. O povo enterrou por aí mesmo”.

É fim de tarde. A viatura tem que chegar na casa de Nilcilene antes do escurecer, onde dois policias passam a noite em vigília. Alguns quilômetros antes do destino, ela se agita ao ver uma picape azul no sentido oposto da estrada: Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Boa Leitura, Filmes