A insurreição na tradição hebreu-cristã

Partindo da percepção da ação revolucionária de Deus expressa no cântico do Magnificat, de Maria, a mãe de Jesus, percorrendo a tradição hebreu-cristã, desde os profetas mais antigos,  em sua análise, Gotay conduz o leitor a compreender melhor o contexto do anúncio do Reino da justiça, mediante a palavra profética confirmada pela prática libertária de Jesus, anunciando as condições e exigências para “entrar no Reino de Deus”, sintetizadas no compromisso de fazer justiça aos empobrecidos e excluídos” nas suas diversas dimensões, garantindo o direito à vida com dignidade a todas as categorias sociais condenadas à condição de “sujeitos negados” (sujeitos impedidos de viver),ao longo da história hebraico-cristã marcada pela submissão a numerosos impérios.

De acordo com o autor, “a  restauração do valor do trabalho é um assunto central” dos textos da maioria dos profetas, assim como do discurso e da prática de Jesus. “Para os profetas a religiosidade tinha um caráter  muito real, histórico, material”; ou seja, “todas as injustiças bíblicas que têm consequências “espirituais” têm sua origem no sistema econômico de exploração e na política e cultura de insensibilidade que este produz. É aí onde acontece a vida; onde ocorrem as relações entre os seres humanos que, em última instância, repercutem no espírito”.

Para degustar melhor o bom sabor da reflexão do professor porto-riquenho Samuel Silva Gotay, convidamo-lo/a para apreciar a íntegra do texto que segue.
(Renato Thiel)
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A insurreição na tradição hebreu-cristã

Samuel Silva Gotay
 In: 80grados – Porto Rico

 Para escândalo dos não iniciados no conhecimento da veia insurreicional da tradição hebreu-cristã, menciono uma mulher incompreendida, cuja mensagem ficou encoberta na história da Igreja e pior ainda, na história do feminismo: Maria, a mãe de Jesus. Disse Maria naquilo que chamamos de Magníficat, bendizendo a Deus que a escolheu para ser a mãe de Jesus:

Minha alma louva a grandeza do Senhor. Meu espírito se alegra em Deus meu Salvador. Porque Ele  olhou para mim, sua humilde serva, e de agora em diante me chamarão bem-aventurada; porque o Todopoderoso fez grandes coisas  em mim. Santo é seu nome! Agiu com todo seu poder: desfez os planos dos orgulhosos, derrubou os reis de seus tronos e elevou os humildes. Encheu de bens os que têm fome e despediu os ricos de mãos vazias. Socorreu o povo de Israel, seu servo, e não se esqueceu de tratá-lo com misericórdia; assim como havia prometido a nossos antepassados, a Abraão e a seus descendentes. (Lc 1,46-55)

Na oração de Maria há duas sentenças contra os ricos e poderosos e  duas a favor dos pobres e famintos. A única maldade e a única bondade que se pode atribuir a qualquer dos dois grupos nesta oração, é que uns são ricos e outros, pobres. Maria compreende a Deus como aquele que subverte a ordem dos reis e dos ricos a favor dos pobres e oprimidos.

A expressão “desfez os planos dos orgulhosos”  implica uma confrontação de classe, enquanto a afirmação “derrubou os reis de seus tronos” constitui um ato político revolucionário. Isso torna-se compreensível quando afirma em sua oração que Deus “encheu de bens os famintos”  e “despediu os ricos sem nada”. Maria se apresenta aqui como a serva de um Deus que subverte a ordem estabelecida.

Provavelmente, não paramos para analisar mais atentamente estas palavras, ou nos temos preocupado em enfocar Maria através dos quadros de pintores sem expressão que a retrataram sempre como uma mulher mumificada com ares de santidade que apenas serve para a domesticação feminina. Maria é, pelo contrário, uma insurgente que anuncia a insurreição e se coloca a seu serviço.

As resumidas palavras de Maria revelam toda uma compreensão teológica que, por sua vez, dá origem à disposição para um compromisso de vida de acordo com o de seu Deus. Encontramos em sua breve oração a consciência da injustiça, da ilegitimidade do poder opressor, do caráter intolerável das diferenças de classe e o claro entendimento de que essa estrutura de poder econômico e político, que gera pobres e ricos, é ilegítima segundo os mais íntimos desígnios de Deus, pelo que deverá ser derrubada e transformada.

Essa estrutura de relações entre seres humanos não é legítima, natural nem querida por Deus. Maria aspirou à democratização do poder, porque diante de Deus somos todos iguais. A implicação inevitável e ineludível para os leitores desse texto, como para a comunidade que o compôs e o defendeu nos primeiros séculos da história da Igreja, é identificar de que lado estamos: do lado do Deus dos pobres ou dos ricos e poderosos?

Essa concepção de Deus, como o Deus dos pobres e oprimidos, Maria a traz da tradição insurreicional dos profetas Amós, Isaías e Jeremías. Mas não se trata de subverter uma ordem “espiritual”, senão uma ordem econômica e política de caráter histórico, objetivo e material que tem implicações espirituais. A espiritualidade da questão, como veremos mais adiante, situa-se no seguir a Deus ou não segui-lo no serviço aos pobres e oprimidos.

As palavras de Maria se inscrevem na sucessão teológica e ideológica dos profetas do antigo Israel, donde há cerca de 2.600 anos o profeta Isaías leu a partir da vontade de seu Deus a conduta religiosa dos que o buscavam por meio de sacrificios, cânticos e louvações. A julgar por sua devoção, era gente comprometida com o templo, a oração e os ritos ali realizados.

O espiritual e a espiritualidade na tradição hebreu-cristã ficaram definidos para sempre a partir dos profetas, para quem os exercícios do espírito estão na ação compromissada com os pobres e oprimidos. É ali, assinalam, onde se realizam os caminhos de Deus e os frutos do espírito, que são contrários ao dogmatismo, à submissão religiosa e irracional de normas e instituições humanas; à perseguição  de pobres trabalhadores sobre os quais se impõe o jugo da repressão; e à insensibilidade ante o pobre  desvalido.

Os frutos do espírito, ao contrário, são aquelas atitudes necessárias para, servir ao desvalido, ao diferente e ao pobre, como assinala o profeta,. Para ele, Deus pede ações sociais e  políticas a favor do oprimido e luta para destruir “todo jugo” que se manifesta em leis que corporificam a “maldade” contra os trabalhadores e os pobres, destroem seus direitos e dilaceram suas condições de trabalho.

Deus pediu aos falsos religiosos fundamentalistas do tempo do profeta que inventavam exercícios espirituais vazios de ações de justiça, para que dessem “liberdade aos atribulados e aflitos”, o que na linguagem materialista dos hebreus significa libertação das opressões e exploração que causam desânimo, degradação, perda dos bens, da saúde mental e física  e da esperança. Finalmente, o profeta está pedindo, em nome de Deus, para romper as diferenças de classe, repartir o pão com os que não o têm e acolhê-los nas casas. Se tratava de romper com o sistema de exploração econômica e com a opressão política imperante.

Por trás destas convicções há uma atitude anticúltica na religiosidade profética quando o culto está vazio de justiça. Disse o profeta Amós:

Eu detesto e desprezo vossas festas… não quero ouvir a salmodia de tuas harpas… que brote o direito como água e a justiça como riacho que não seca é o que eu quero (Amós 5,21-24).

O Primeiro Isaías o expressa assim:

Farto estou de holocaustos de carneiros… cubro os olhos para não vê-los… aprendei a fazer o bem, buscai o justo, assegurai ao oprimido os seus direitos, fazei justiça ao órfão, advogai em defesa  da viúva… e se forem vermelhos como carmesim (os vossos pecados), qual lã (branca) ficarão (Isaías 1,11-20).

Segundo os profetas, o culto a Deus tem que ser um culto de celebração da justiça praticada ao pobre e oprimido, ao trabalhador, à viúva, ao órfão, aos estrangeiros desterrados, o que constitui a verdadera oferenda a Deus. É um culto contrário ao dos falsos religiosos bem pagos e dos sacerdotes de templos ricos, onde dão assistência aos opressores e injustos. Lamentavelmente, com o tempo, o culto a Maria cairá nas mãos de seus próprios adoradores.

Quando se fala de injustiça ou de justiça  nos textos bíblicos da tradição hebreu-cristã fala-se em termos históricos. Nesta tradição o pecado é a injustiça, claro está, a injustiça é sempre contra o próximo, que é fraco, não tem poder, não tem com que se defender. Essa injustiça-pecado é a que tem a ver na literatura profética com os pobres que são logrados por juízes vendidos, os que são roubados nos pesos e medidas dos produtos, os que são expropiados de suas terras, deixados órfãos ou viúvas, os que sofrem violência, roubo, fome, sede, perseguição e enfermidade pelas mãos dos injustos. Maria e a comunidade da qual fazia parte vinham dessa tradição.

Exemplo especial é o texto inicial de Isaías, em que gritava contra a “exploração” dos trabalhadores. O profeta Jeremias, por sua vez, enfrentou os poderosos  empresários de seu tempo quando disse:

Ai de quem edifica sua casa sem justiça, e  seus aposentos sem direito! Que faz o próximo trabalhar em vão, sem dar-lhe o pagamento (Jer. 22,13).

Podemos observar, em consequência, que nestes textos a restauração do valor do trabalho é um acontecimento central, dramático. Disse o belo poema do profeta Isaías sobre a criação dos novos tempos:

Construirão casas  e as habitarão, plantarão vinhas e comerão seu fruto. Não edificarão para que outro habite, nem semearão para que outro coma. (Is. 59,17-25).

A  restauração do valor do trabalho é um assunto central nestes textos. Dizíamos que para os profetas a religiosidade tinha um caráter  muito real, histórico, material; trata-se do que se sofre no corpo e repercute no espírito. Em outras palavras, todas as injustiças bíblicas que têm consequências “espirituais” têm sua origem no sistema econômico de exploração e na política e cultura de insensibilidade que este produz. É aí onde acontece a vida; onde ocorrem as relações entre os seres humanos que, em última instância, repercutem no espírito.

No pensamento hebreu, contrário ao pensamento platônico dos gregos, o espírito tem seu lugar no corpo material mas não se pode separar do corpo, como o espiritual não se pode separar do próximo. Para Maria e os profetas estava claro que a vida espiritual não existe separada da vida social mas, pelo contrário, ocorre na vida social toda vez que ali se manifesta o espírito do bem gerado pelo compromisso com o Deus dos pobres e oprimidos.

Ali também, advertem, se manifesta o espírito da maldade produzido pelo sistema de exploração econômica para benefício egoísta dos que oprimem e exploram.

Frente a esse sistema se rebelam os que, como os profetas, Maria e Jesus, têm outra visão e compromisso com a vida. Por isso, a insurgência contra os ricos e os poderosos é um assunto do espírito, um assunto iniciado e dirigido por Deus.

Maria não se esgota em si mesma. Foi, como todas as mães, educadora de Jesus, sua primeira educadora. De modo que o filho não podia resultar menos revolucionário que sua mãe. Disse Lucas sobre Jesus:

Lhe entregaram o livro do profeta Isaías e desenrolando-o, encontrou  a passagem onde estava escrito: O espírito do Senhor está sobre mim e me ungiu. Me enviou a anunciar aos pobres a boa nova, a proclamar a libertação aos cativos, a vista aos cegos, para libertar os oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor’. Enrolando o livro o devolveu ao ministro e se sentou… Começou a dizer-lhes: Esta passagem da Escritura que acabais de ouvir hoje se cumpriu. (Lc 4,16-21).

Agora podemos entender porque o crucificaram como “sublevador”. Na mesma tradição dos profetas, Jesus proclamou a noticia aos pobres, não às autoridades do templo e do país, não aos honoráveis nem aos empresários, mas aos pobres. Falou da “boa notícia”, aquilo que proclamam os mensageiros dos reis e príncipes quando vêm para impor uma nova ordem de relações, em contraposição à ordem imperial dos romanos, querida pelos judeus colonizados defensores da presença romana em Israel.

Como se não bastasse, Jesus disse que veio para proclamar a “libertação dos cativos”, os que estão no presídio colonial romano (que geralmente são presos políticos) e libertar os “oprimidos”, que é um termo político e social porque se trata geralmente dos trabalhadores, camponeses explorados, pescadores mal pagos e inquilinos extorquidos. Também prometeu a recuperação da vista aos cegos numa cultura em que a rejeição dos doentes era uma evidência de condenação por seus pecados. O do “ano de graça” é ainda mais grave. Os escravos deviam ser libertados, igualmente as colheitas, para que todos os famintos viessem comer sem pagar. Jesus proclamou a milenar lei escrita no livro do Levítico: Declarareis santo o ano cincoenta e proclamareis na terra a liberdade para todos os seus habitantes.

Com este programa revolucionário, Jesus colocou-se a cruz nas costas desde o dia de sua apresentação no templo.

Seiscentos anos depois de Isaías, Jesus, o filho de Maria, seguiu na mesma linha do profeta. Em seu ministério, vai proclamar que não há comunhão com Deus nem salvação se não for pela via do serviço aos pobres e oprimidos. Na parábola do fim dos tempos e no julgamento das nações, disse Jesus aos que herdarão o Reino de Deus: Porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era estrangeiro e me acolhestes, estava nu e me vestistes, enfermo e me visitastes, na prisão e viestes  ver-me.

Então os justos lhe responderão: Senhor, quando te vimos com fome e te damos de comer? E ele lhes dirá: em verdade vos digo, que quando o fizestes a um destes, meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes.

Então dirá aos de sua esquerda: Afastai-vos de mim malditos, porque tive fome e  não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber. Em verdade vos digo, que quando deixastes de fazer isto a um destes meus irmãos mais pequenos, também a mim o deixastes de fazê-lo (Mt 25,31-46).

O que Maria aprendeu dos livros proféticos e o ensinou a Jesus é que Deus está entre os pobres e oprimidos. A salvação está no serviço prestado aos rejeitados e abandonados pelo sistema, os enfermos, os encarcerados, os migrantes, os excluídos por causa de sua diferença e não no serviço aos empresários que promovem a vida económica do país, nem aos governadores que mantêm a ordem e a segurança, nem aos legisladores que fazem as leis para manter a ordem social.

É importante assinalar, nesta altura do que estamos dizendo, que a ruptura maior no  pensamento religioso da evolução do homem primitivo, passando pelas antigas civilizações até chegar a nossos dias, é a irrupção no Oriente Médio de um Deus que não está a serviço dos reis, dos poderosos, dos sacerdotes ou da instituição religiosa; senão um Deus a serviço dos pobres e oprimidos.

Se ler a realidade a partir dos profetas é duro, a partir de Jesus é mais duro ainda porque este exigiu um compromisso mais radical. Maria, sem dúvida, fora uma influência muito forte em seu filho. Ler os evangelhos, especialmente esses oito incidentes entre ricos e pobres no livro de Lucas, na Bíblia, é suficiente para perceber com clareza a parcialidade do Deus presente na formação da Igreja primitiva.

A questão dos pobres e oprimidos aparece, de forma radical, na passagem de Mateus 19 e Marcos 10 e também a encontramos no livro de Lucas, capítulo18, na qual o jovem rico vem perguntar a Jesus: Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?. Ao que Jesus disse: Ainda te falta uma coisa: vende tudo quanto tens,  reparte-o entre os pobres e terás um tesouro nos céus. E vem e segue-me.

O jovem foi embora entristecido porque tinha muitos bens. Porém mais interessante é o comentário que Jesus fez a seus discípulos:

Como é difícil aos que têm riquezas entrar no Reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no Reino de Deus. (Lc. 18,18-25)

As implicações socioeconômicas, políticas e religiosas da pregação de Jesus para a ordem estabelecida em Israel foram devastadoras. Os poderosos, empresários, religiosos fundamentalistas e sacerdotes do templo convergiram para a necessidade de crucificá-lo para evitar as consequências políticas e sociais da mensagem do filho de Maria, que começou a afirmar que veio em nome de Deus.

Jesus codificou em seu ministério o julgamento sobre ricos e pobres quando pronunciou o Sermão da Montanha:

Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Mas ai de vós os ricos! Porque já tendes vosso consolo. Ai de vós os que agora estais saciados! Porque passareis fome (Lc. 6 20-26).

Jesus teve presente a oração (Magnificat) de sua mãe, Maria. Ante o assombro de seus discípulos, Jesus disse: Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível.

Jesus também pensou nas alianças que podiam fazer os ricos em benefício dos pobres. Esse é o caso de Zaqueu, um homem que em consequência  da busca de sua salvação, disse: Darei, Senhor, a metade de meus bens aos pobres. A isso Jesus respondeu: Hoje a salvação chegou a tua casa! (Lc. 19).

Neste caso específico, Jesus abriu uma possibilidade para judeus ricos, um exemplo a seguir pelos ricos nas sociedades de divisão de classe, como é o caso da sociedade capitalista hoje.

O Deus da tradição hebreu-cristã é o dos pobres e oprimidos. Haverá outros deuses, porém este, segundo a Bíblia, é o insurgente, tal qual se afirma no milenar Salmo 146: que faz justiça aos oprimidos, dá pão aos famintos; Javé liberta os acorrentados, abre os olhos aos cegos, aos encurvados endireita, protege o forasteiro, a viúva e ao órfão sustenta.

Além de que é confiável e criou os céus  a terra, o Salmo não dá outros atributos exceto os do Deus dos pobres. Na Bíblia não há nada desses floreios filosóficos que os teólogos inventaram mais tarde. Nada de onipotente, onisciente  onipresente. Só disse que é o Deus dos pobres e oprimidos e basta. Advertimos, além disso, que esse é o mesmo catálogo de exigências para seus seguidores, desde os tempos de Isaías até os tempos de Jesus e, logicamente, até os nossos.

Esta é a dimensão que jaz nas raízes mais antigas desta milenar tradição religiosa, como manifesta o Salmo 82:

Se levanta Deus em meio dos deuses e profere: Até quando julgareis inicuamente e fareis acepção dos ímpios? Julgai a favor do fraco e do órfão, ao humilde, ao indigente fazei justiça; ao débil e ao pobre libertai, das mãos dos ímpios arrancai-o.

As consequências em compreender a Deus dessa maneira são enormes. É desde essa concepção do mundo que a exploração, a opressão e a falsa religiosidade que a encobre se convertem em plataforma para a insurreição. Através da história, a igreja institucional se desviou e contradisse sua própria história, ainda que a tradição insurreicional sempre retorna, como é o caso da Teologia da Libertação.

A partir da década de 1960, uma gigantesca geração de sacerdotes, monjas/es, pastoras/es e leigas/os católicos e protestantes, fundamentando-se nessa tradição insurreicional, se levantaram para acompanhar o povo no enfrentamento dos regimes capitalistas latinoamericanos. Uma resumida lista dos movimentos mais importantes nos dá uma ideia da amplitude dessa explosão insurreicional: Camilo Torres, a quem se chamou o padre guerrilheiro; a ação católica brasileira; os movimentos estudantis cristãos protestantes; os bispos contestatários sob a direção de Helder Câmara, no Brasil; o clero brasileiro da Carta Aberta ao Clero; a incorporação de cristãos à guerrilha como a Madre Margorie Bradford, os padres Thomasa e Arthuir Melville  os 25 estudantes de seu colégio em Huehuetenango, Guatemala; os jovens da guerrilha do Teoponte na Bolívia que nos legou o Diário de Néstor Paz; o Movimento Populorum Progressio;  e os Cristãos Tupamaros do Uruguai.

Também se encontram os 80 padres do Chile que pediram a revolução na Igreja e no país; os teólogos e bispos radicais da conferência de Medellín; os Curas de Golconda, na Colômbia; os 250 padres assinantes da Carta aos Bispos do Terceiro Mundo;  a revista Cristianismo Revolução na Argentina; o movimento protestante Igreja e Sociedade da Bolivia; o movimento dos Oitenta (sacerdotes) no Chile; e o grande Congresso Latinoamericano de Cristãos pelo Socialismo celebrado no Chile, no ano de 1972.

Porém, não se resumiu nisso. O que pareceu desaparecer com a morte de Ernesto “Che” Guevara e o advento das ditaduras na América Latina pendeu para outro lado. Diversificando os sujeitos revolucionários e suas temáticas, hoje temos uma teologia da libertação negra; uma teologia da libertação feminista; e a teologia da libertação africana e asiática.

Duas associações de mulheres teólogas da libertação, a africana e a asiática, publicam numerosos livros a partir de sua participação na vida nacional, muitos dos quais se encontram na biblioteca do Seminário Evangélico de Porto Rico, em Río Piedras.

Entendemos, então, porque seguir colocando Maria por detrás da vitrine de mulher domesticada. Paradoxalmente, o tem  conseguido aqueles que fizeram  dela o centro de sua devoção. Porém, Maria, contrariamente, é portadora de uma mensagem muitíssimo maior que o nicho em que pretenderam enclausurá-la. Ela personifica a prática insurreicional da tradição hebreu-cristã.

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*Tradução – Renato Thiel e Equipe do Memória e Caminhada.

*Este artigo é parte da Conferência Magna que proferiu o autor durante a inauguração  do Colóquio Acadêmico que celebrou a escola de Direito Eugenio Maria de Hostos no dia 13 de abril de 2011, em Mayagüez.

*Samuel Silva Gotay é professor na faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Porto Rico em Rio Piedras. Seus principais trabalhos são nas áreas de história e sociologia da religião, destacando-se O pensamento cristão revolucionário na América Latina e Caribe, publicado originalmente em 1981 e editado em espanhol, alemão e português. Também publicou Protestantismo e política em Porto Rico; 1898-1930, Catolicismo e política em Porto Rico, sob Espanha e Estados Unidos, séculos XIX e XX e atualmente trabalha no volume Religião e política em Porto Rico durante o período da Guerra Fria: 1960-1990.

 

NOTA:

80grados é possível com o apoio de cursos de redação jornalística da Escola de Comunicação, Recinto de Rio Piedras, Universidade de Porto Rico, em parceria com Prensa Comunitaria, uma entidade sem fins lucrativos que se dedica em promover o jornalismo cidadão. O grupo que colabora se define pelo seguinte:

Somos, antes de mais nada, uma comunidade que compartilha o gosto pela cultura, o pensamento e a informação. A revista que propusemos é um experimento que procura juntar no mesmo espaço várias tradições ou práticas: o jornalismo profissional, tão voltado para a atualidade e os sucessos; a revista intelectual, em geral vinculada à filosofia, às artes e à política, e o jornalismo cidadão, um esforço muito recente para recolocar o diálogo público num nível mais transcendente e humano. A tudo isto aspiramos, num ambiente cooperativo e solidário. (ver ¿PARA QUÉ?)

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