A Centralização favorece o poder e prejudica as CEBs

O grande teólogo da libertação Comblin apresenta-nos uma interessante reflexão sobre o incômodo tema do autoritarismo em geral muito presente nas instituições religiosas ao longo de sua história, enfocando de modo particular a igreja católica nas décadas mais recentes. O enrijecimento das formas e normas de governo, a organização hierárquica visivelmente autoritária, excluidora do poder, centralizadora nas decisões, são alguns dos sinais desse seu virar as costas para o mundo, para a sociedade, para seus fieis, para a vida, matando-lhe os parcos ares de liberdade e de prática da democracia interna, sufocando-lhe as reais possibilidades de estímulo à existência dinâmica da vida liberta que teima manifestar-se rebelde, espontânea, plena e pluralmente. Assegurar de forma respeitosa o pleno exercício do sagrado princípio da participação coletiva nas decisões que afetam a vida de todos constitui-lhe um enorme desafio a responder.

Sinta-se, pois, prazerosamente impulsionado para a leitura e reflexão das ideias que Comblin expõem nesse saboroso pensar partilhado que segue.

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A CENTRALIZAÇÃO FAVORECE O PODER E PREJUDICA AS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE

 José Comblin – Teólogo

 Uma administração centralizada inevitavelmente quer defender os seus poderes e aumentá-los. O que busca a administração central é em primeiro lugar o seu próprio bem, ou seja, o aumento do seu poder: fazer mais leis, mais obrigações, mais formulários, mais papéis impressos, mais exigências.

Na Igreja não é diferente. O que busca a administração é assegurar mais poder. O bem da Igreja é um pretexto. Isso é parte da natureza humana. Se todos os funcionários da cúria fossem santos o problema continuaria. Seria pior porque se fossem mais santos, queriam trabalhar mais e fazer mais impo­sições ainda. O princípio de subsidiariedade vale para todos os seres humanos e quando um sacerdote ou um bispo é ordenado a sua natureza humana não muda. Precisa descen­tralizar: as nomeações episcopais, o direito canônico, a liturgia, a formação do clero, a organização do ensino, das obras de caridade e outras obras. Tudo pode ser organizado, por exemplo, em cada continente ou cada totalidade cultural.

Nos primeiros séculos a Igreja foi orga­nizada em patriarcados, que eram unidades culturais. A existência dentro da ortodoxia católica de Igrejas de diversos ritos orientais mostra que isso pode funcionar muito bem. A centralização atual é o resultado de razões puramente históricas.

O sistema atual ainda é na Igreja a conti­nuação do colonialismo. Chegando a Puebla João Paulo II condenou as comunidades de base, condenou o movimento bíblico, con­denou a teologia latino-americana. Conse­qüência: em 30 anos, somente no Brasil, 30 milhões de católicos deixaram a Igreja Católica para aderir a igrejas ou movimentos pentecostais ou neopentecostais, consequência da pastoral imposta.

O papa escutou alguns conselheiros que tinham intenções políticas muito claras. Não procurou saber mais, recorrendo a instâncias mais representativas. Pensou que o problema era o comunismo e não era o comunismo. Ele tinha a possibilidade de receber outras infor­mações. Alguns podiam dar-lhe a informação de que a América Latina não é Polônia, nem sequer é Europa.  Nós estávamos aí sabendo o que ia acontecer, mas nada podíamos fazer. O cardeal dom Aloísio Lorscheider sentiu imediatamente tudo e procurou consertar, mas não tinha peso suficiente e não era da confiança do papa.

Ditadura

Um sistema de governo em que uma pes­soa sozinha decide tudo sem que haja debate público e instância deliberativa, chama-se ditadura. Um sistema em que as verdadei­ras motivações das decisões do governo, são escondidas com certeza não responde às exi­gências do direito natural. Os cidadãos têm o direito de saber quais são os fundamentos das decisões tomadas. Por exemplo, quando Paulo VI condenou o uso de meios anticoncepcionais artifi­ciais, não se soube que os cardeais consultados na sua maioria não concor­davam, que as comissões nomeadas pelo papa para estudar o assunto também não concordavam. Lem­bro-me muito bem de ter ouvido os comentários do cardeal Suenens, que era o meu bispo.

Muito bem. Uma gera­ção depois, o Conselho da Família envia aos bispos um comunicado em que diz que já não se deve fa­zer perguntas às penitentes sobre a sua prática de limi­tação de nascimento. Se não se pode fazer perguntas, é porque não se deve conside­rar como pecado. O próprio Alfonso López Trujillo teve de comunicar secretamente essa revogação implícita da encíclica Humanae Vitae. Mas porque não se disse publicamente? A maioria dos católicos ainda o ignora, embora não aceite a condenação. Os católicos não conhecem os métodos da cúria romana. Não sabem que nunca se publica a revogação de uma ordem dada anteriormente. Mas se diz que não se devem fazer perguntas aos penitentes. Até o papado de Bento XIV no século XVIII, nunca se havia revogado a condenação dos juros, o que proibia que católicos trabalhassem em bancos. Mas o papa disse então aos confessores que já não se deviam fazer perguntas aos penitentes.

Por que não se disse que agora a auto­ridade tinha mudado? Por que as mulheres não podem saber que a Igreja já não con­dena os meios artificiais de limitação de nascimentos? Muitas ainda acreditam que a Igreja as segue condenando e tratando como pecadoras. Essas são práticas de ditaduras. Numa ditadura o governo nunca erra. Nun­ca reconhece que foi um erro. Na Igreja só se reconhece depois de quatro séculos. Se houvesse instâncias de deliberação, pode­riam ser evitados muitos erros que vêm da precipitação, criando depois a dificuldade de reconhecer o erro.

Se não se fazem essas reformas, nenhuma outra reforma pastoral será possível. Tudo depende do centro, tudo depende do papel do papa. Paulo VI sabia-o e João Paulo II sabia-o também. Ainda não sabemos o que pensa o papa atual. Mas acredito que não deve pensar diferente do seu antecessor.

Não é questão de santidade. O papa Pio X foi um santo. Mas cometeu erros colossais em matéria bíblica que explicam uma boa parte dos problemas atuais da Igreja no meio do mundo! O problema é que o papa é homem também e tem os mesmos limites da nature­za humana. A sabedoria humana aprendeu a construir sistemas de governo adaptados à condição humana. Jesus não definiu nenhum sistema de governo. E não estamos mais nos tempos de Gregório VII. O problema é que tudo depende de uma pessoa só!

As reformas podem demorar séculos se não aparece um dia o papa que toma a decisão de mudar o modo de exercício do ministé­rio de Pedro. Em princípio, teria de ser um homem mais jovem. Precisa suprimir esse preconceito que é melhor um homem já de idade para que não permaneça na frente tanto tempo. Mas há outra maneira: o papa pode aplicar-se a si mesmo a norma dada aos bis­pos. Antigamente, os seres humanos viviam poucos anos, uma média de uns 30 anos. Hoje em dia a média já atinge 80 anos e vai subir mais. Não é normal que uma instituição tão complexa tenha de ser dirigida por um homem com mais de 80 anos de idade.

Tanta gente na Igreja pensa assim! Talvez sejam mais sábios do que eu pensando, que de qualquer maneira nada vai mudar e é melhor conformar-se, do que gastar energia numa causa perdida de antemão. O que me consola, é que não estou sozinho. Já há muitas pessoas que estão escrevendo essas coisas.

Publicado no jornal Linha de Frente – do Grupo Ser – Ano IV, nº 21, maio/junho 2011, p. 4, Brasília – editoraser@terra.com.br

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