O Anel de Tucum

“(…) O anel de tucum uma palmeira da Amazônia, aliás com uns espinhos meio bravos. Sinal da aliança com a causa indígena, com as causas populares. Quem carrega este anel normalmente significa que assumiu estas causas e as suas conseqüências. Você toparia em levar o anel? (…) Olha, isso compromete viu. Queima! Muitos e muitas por esta causa, por este compromisso foram até a morte!”

(Dom Pedro Casaldáliga)

O Filme:

      O Anel de Tucum é o 3° longa metragem da Verbo Filmes produzido em 35 mm, no ano de 1994. O filme retrata o cotidiano dos homens e mulheres que fazem das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e dos movimentos populares uma realidade. O longa se passa no ano de 1992, mesmo ano que ocorre o 8° Encontro Intereclesial de Comunidades de Base em Santa Maria – RS. Podemos concluir isso com a cena em que o personagem principal, André, aparece em um orelhão e ao fundo estão pregados os cartazes do encontro.

     Para uma reflexão sobre o filme podemos dividi-lo em dois momentos que se misturam no transcorrer da exibição, sendo o primeiro uma narrativa ficcional com personagens e roteiros criados, e outro formado de partes documentais onde integrantes reais dos movimentos populares, das Comunidades Eclesiais de Base e lideranças religiosas ganham voz.

     Os dois personagens principais da trama são André, filho de um líder dos grandes empresários, interpretado pelo ator João Signorelli e Lúcia, uma filha da classe média que se sensibilizou pela luta das pessoas sem moradia, interpretada por Cintia Grilo. André recebe de seu pai a missão de descobrir quem está liderando a subversão do povo no campo e na cidade e para isso usa o disfarce de jornalista e se infiltra nos encontros dos movimentos populares, no 8° Intereclesial e no encontro da CNBB para investigar quem são os padres e bispos instigadores. No meio do percurso André encontra com Lucia, uma militante ativa na briga pela moradia e que será uma ouvinte fiel das reflexões desenvolvidas por ele durante o filme. Um personagem secundário que destaco é um catador de papel que, quando interrogado, declama uma poesia que vai do repente ao rap a qual tento transcrever abaixo:

 “O Dr. aqui pergunta o que é que quer dizer,
Essa frase no carrinho: Nunca pergunte porque!
Ocês tem vários jornais, revistas e televisão,
Que é pra nus educa através di informação,
Mais usa pra ingana, iludi e provoca mais miséria e confusão,
Oceis falam muito em Deus, paz e amor no mundo inteiro,
Mais no fundo tão rezando pra outro deus, o deus dinheiro,
Num sabe o que a gente sente e também não querem sabe,
O qui importa nosso frio? O qui importa nossa fome?
Proceis a gente é lixo! Proceis a gente é bicho!
Mais a gente nasceu homem, e como homem que viver.
O qui importa o que eu penso? O qui importa meu nome?
Nunca pergunto porque.
(o poeta olha para o crucifixo e conclui.)
Ele me conhece. Ele sabe quem eu sou.” 

   

  Na parte documental as cenas se passam no encontro da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil em Itaici, São Paulo, em encontros de comunidades e em entrevistas com Dom Pedro Casaldáliga, Dom Luciano e outros.

     O filme como uma fonte histórica não estaria de forma alguma descolado das questões e desafios que a Igreja Católica se colocou na década de 90 e nas décadas anteriores. Reflete no filme uma importante indagação que vem lá de São Francisco de Assis e ganhou vida aqui no Brasil e America Latina a partir dos anos 60. A Igreja deve se preocupar com o lado espiritual ou com as necessidades reais, digo, materiais do povo? Em rápida síntese podemos perceber que a Igreja no Brasil a partir da década de 60 faz uma opção clara no sentido de lutar pelas necessidades do povo com um discurso de alcançar a justiça social e a felicidade aqui na terra. No filme observamos isso na fala de Dom Luciano: “(…) Tão importante é a mensagem do Cristo que a Igreja se empenhe, se esforce para que todos tenham vida e que a tenham em abundância.”. E também na leitura da carta dos Bispos da América Latina feita por André:

 “(…) Descobrir nos rostos sofredores dos pobres o rosto do Senhor,
Os rostos desfigurados pela fome desiludidos pelos políticos que prometem, mas não cumprem.
Os rostos humilhados por causa da sua própria cultura,
Os rostos sofridos das mulheres desprezadas,
Os rostos envelhecidos pelo tempo e pelo trabalho,
O rosto do próprio Deus no meio de nós.” ¹

 

      Já a partir de finais dos anos 80 e começo dos anos 90 os setores ligados ao pentecostalismo começam a ganhar força dentro da Igreja e no filme podemos fazer esta leitura logo no começo no momento em que o empresário, pai de André, diz que a Igreja tem que lidar somente com a questão espiritual, deixando a política a cargo deles, os empresários e os políticos.

     Decorrendo dessa interrogação anterior o filme parece querer responder quem deve fazer política, ou melhor, de quem é o direito de se manifestar politicamente. A resposta disso sintetiza-se na fala de Dom Pedro Casaldáliga quando interrogado se ele não se acha um Padre político: “(…) Sim, tem a política a favor e tem a política contra, tem a política de uns e a política de outros, alias, André, na vida tudo é política. (…) Tudo é político mesmo que o político não seja tudo.”

     O pensar e agir politicamente que o filme coloca é um desafio não só do momento historico em que foi gravado, mas também dos dias atuais. A Igreja, os padres e os fieis devem se negar de participar do debate político? Devem somente tratar dos males que infligem a alma? Enfim, as mesmas questões continuam sendo bem atuais.

  1-      Encontrei a referência desta Carta elaborada pelos Bispos da América Latina no Livro:  Santo Domingos, Conclusões – IV Conferência Geral do Episcopado Latino Americano (12-28 de outubro de 1992) pag. 178, mas que nos remete à outra fonte (cf. CELAM, documento de Trabalho, 168) a qual não consegui ter acesso.

Ficha Técnica: 
Ano: 1994
Duração: 106 min
País: Brasil
Produção/Realização: Verbo Filmes – www.verbofilmes.org.br
Direção/Fotografia: Conrado Berning
Roteiro: Maria Inês Godinho, José Gaspar W. Guimarães, Conrado Berning
Atores principais: João Signorelli – André / Cintia Grilo – Lúcia
Participação Especial: Pedro Casaldáliga e as Comunidades Eclesiais de Base
Som direto: Pedro Luiz Siaretta / José Gaspar W. Guimarães
Trilha sonora: Sérgio Turcão
Foto da Capa: Roland Hanka / Brigitte Schulte-Walter
Projeto gráfico da capa: Jorge Custódio

 

No Youtube:

Parte 1-http://www.youtube.com/watch?v=rH38btWiMgw
2 –http://www.youtube.com/watch?v=7XCHqg3cGIM&feature=related
3- http://www.youtube.com/watch?v=m5aTl_Kn3hE&feature=related
4- http://www.youtube.com/watch?v=-XdzfnDOIOg&feature=related
5-http://www.youtube.com/watch?v=yAhN6WE7T5M&feature=related
6-http://www.youtube.com/watch?v=hagcZBZ31xY&feature=related
7-http://www.youtube.com/watch?v=Ufx0ObUM28c&feature=related
8-http://www.youtube.com/watch?v=uFPGxrRMoBU&feature=related

 

Onde é possível encontrar mais sobre Anel de Tucum:

 http://pjpira.wordpress.com/2009/10/13/anel-de-tucum/
http://www.pjtaubate.org/2009/artigos.php?op=ArtExibe&idArt=7
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1 comentário

Arquivado em Filmes

Uma resposta para “O Anel de Tucum

  1. Anônimo

    onde estão as liderançaas da verdade ,se calarem a voz do profeta as pedras falarão,povo unido distuiremos qualquer governo,povo unido se transforma em um só Estado em uma só carne

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